I
panorama em colapso o homem do nariz em frente à moça de vestido você não está com frio não não quer meu casaco não estou com frio é fim de tarde e o céu azul aos poucos se desbota em chumbo enquanto o homem do nariz dirige o olhar ao chão em um breve gesto de delicadeza contrária à própria imagem e a moça de vestido suspira um suspiro de desdém um suspiro tão triste tão triste ao homem do nariz que agora pensa em algo triste tão triste enquanto as luzes à distância se explodem com o cair da noite estranha
II
o que você quer me dizer eu não sei ao certo então o que viemos fazer aqui eu preciso dizer algo e a noite estranha ri do homem do nariz enquanto a moça de vestido cruza os braços em um um gesto simples rude e belo ao homem do nariz que sente o rosto arder contra o vento você pode me dizer o que quiser sim eu acho que posso acho que posso dizer o que quero mas eu não sei exatamente o que quero ao dizer qualquer coisa não seja idiota enquanto a moça de vestido sacoleja o corpo magro ao sinal do frio amargo que a desconcentra vamos lá diga o que quer dizer você está com frio já disse que não se estiver com frio quem sabe não possa vestir meu casaco não estou com frio seja rápido
III
o horizonte em convulsão e as gralhas loucas que mancham o silêncio que eu acho que te amo a noite dança e o vento alucinado sorri um sorriso em festa enquanto a moça de vestido mira com os olhos faiscantes toda a vergonha dobrada à sombra do homem do nariz não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja não seja não não não seja ridículo não seja ridículo não seja não não seja não seja não
IV
o poema a palavra o verso a palavra o abismo a palavra o riso o drama a palavra a palavra a palavra eu preciso de uma aspirina