Renato Ciacci e Tiago Barreto.

Junho 10, 2009

A Farsa

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 5:07 pm

I

panorama em colapso o homem do nariz em frente à moça de vestido você não está com frio não não quer meu casaco não estou com frio é fim de tarde e o céu azul aos poucos se desbota em chumbo enquanto o homem do nariz dirige o olhar ao chão em um breve gesto de delicadeza contrária à própria imagem e a moça de vestido suspira um suspiro de desdém um suspiro tão triste tão triste ao homem do nariz que agora pensa em algo triste tão triste enquanto as luzes à distância se explodem com o cair da noite estranha

II

o que você quer me dizer eu não sei ao certo então o que viemos fazer aqui eu preciso dizer algo e a noite estranha ri do homem do nariz enquanto a moça de vestido cruza os braços em um um gesto simples rude e belo ao homem do nariz que sente o rosto arder contra o vento você pode me dizer o que quiser sim eu acho que posso acho que posso dizer o que quero mas eu não sei exatamente o que quero ao dizer qualquer coisa não seja idiota enquanto a moça de vestido sacoleja o corpo magro ao sinal do frio amargo que a desconcentra vamos lá diga o que quer dizer você está com frio já disse que não se estiver com frio quem sabe não possa vestir meu casaco não estou com frio seja rápido

III

o horizonte em convulsão e as gralhas loucas que mancham o silêncio que eu acho que te amo a noite dança e o vento alucinado sorri um sorriso em festa enquanto a moça de vestido mira com os olhos faiscantes toda a vergonha dobrada à sombra do homem do nariz não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja não seja não não não seja ridículo não seja ridículo não seja não não seja não seja não

IV

o poema a palavra o verso a palavra o abismo a palavra o riso o drama a palavra a palavra a palavra eu preciso de uma aspirina

Junho 9, 2009

Sono de Antão.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 9:48 pm

Era silêncio e desordem para se fechar os olhos e as cortinas eram flores & cabeças. Fecho minha cabeça, enquanto a cara…

Era um deserto e ouvíamos miragens, miríades, mirras, urros, ilhas. Sono contra o vento. Os pés deslisavam nas sandalias empoeiradas e cruzavam florais…

Era um sonho o que eu tocavana superfície dos olhos. Você já cruzou uma parede de escarradas? É bom, não é?! Sobre a cama, pratos empilhados. E vem a despedida, a despedida. A DESPIDA. Era uma estória cantarolada pelo porco que tirava ovelhas velhas da cartola.

A anotação se incendiou depois de tocar as mãos do Ente. A presença cósmica invadia toda a aldeia e, mirados ao longe por uma coruja, homens histéricos entravam em frenesi. Cagavam pelas ruas sangrando à dentadas dos outros. Dentadas nas latas, nos cães, nas rãs, nos prédios, nas merdas.

A viela atrofiada se esbarra no fim da avenida. Lá, a Serpete se ajoelha. Chacoalha no crânio seco, sibila pelo mundo. Escorre por entre as gretas e nascem em quartos.

Sêmen delicadamente recebido nos seios.

Olhar que espirra espasmos. Espreitada pelos caçadores, a Humanidade se contorce ao firmamento. É o ciclo natural da vida. Deixo que me morda na mão. Doces dentes delicados. Dedos de cristal. Incêndio.

Na rosa, um ninho. Deus nasce. É gira-sol! É gira-sol! Posso o ver requebrando nos jardins acompanhado de animais delicados e demônios paternais. Todos giram. As flores pulsam o Nascimento. Brilham as estrelas da manhã, brilham os olhos, retinem acidentes.

Esfinge enforcada na calçada.

Junho 5, 2009

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 10:55 am

Questão para suscitar futuras pesquisas & meditações: como se transformar em crocodilo?

Junho 3, 2009

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 8:51 pm

... e então, calado, o homem não pôde perder a oportunidade de se apresentar. Ele disse que

- Bem, é muito fácil comprar uma porção de, cof cof, urina, não é mesmo? Bem, você sabe onde eu poderia… tossir por aqui? Sim, é bem parecido com o implante que se pareceu com…

- Então você acha que é muito esperto, não é mesmo?! Oh sim, temos um esperto aqui, ENTÃO. E… eu não sei dizer se

- Isto não deveria ter uma hora. Uma hora marcada, digo. Não, não é que eu… não, não era isso.

- 1 – Pré-aqueça o forno na temperatura entre 180 a 200°C;

2 – Adicione 2kg de mistura de bolo Itaiquara e 800ml de leite na batedeira e misture na velocidade média durante 1 minuto;

3 – Adicione 12 ovos, ainda em velocidade média, em seguida, passe para velocidade alta e bata por mais 5 minutos;

4 – Despeje a massa em fôrmas untadas ou forradas com papel manteiga;

5 – Asse sem vapor durante 30 a 45 minutos, dependendo do tamanho do bolo.

- Eu gostaria de saber QUE HORAS ISSO VAI ACABAR. Você pode me encaminhar à alguém? Eu preciso mesmo. Se eu não precisasse eu não precisaria, he-he-he, né?!

- A senhora não deveria dizer isto a estas horas, senhora. A senhora poderia… senhora, a senhora poderia

Seu semblante de polvo.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 8:41 pm

Você olha para cima e vê a tormenta. Ela chega. Você correu até a porta e a viu, galopante, por toda a planície. Talvez algum tempo para respirar, talvez comer alguma coisa. Quarenta e três anos. As pedras continuam pedras e não são mais pedras. Você se parte em quinze partes e escorre ao lodo. As pernas foram para outro continente. Você sabe onde foram? Quando a mesa tremeu e você cerrou os olhos, toda aquela poeira acumulada por anos

Descalça os sapatos

Como quem compra veneno

Abre o cúmulo e encerra

Fraca, porta

Onde estão seus queixos?

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 5:17 am

adiante, o grande círculo. o grande círculo. o grande círculo. este grande caldeirão de paz. eu nunca tive paz. nunca fui capaz de ter paz. nunca fui capaz de ter saúde. agora. agora. às vezes, essa onda abraça o corpo e, às vezes, o mar é mais do que essa brisa marítma. às vezes, eu corro da onda. eu corro da onda desde meu primeiro dia. o primeiro dia que não me lembro. este mar infinito de árvores, areia, pedra, terra, terra, água, ar, fogo, animais. esse mar revolto que entra pela boca e que lava. lava. esse mar de fogo. esse mar que me aterroriza a alma de criança medrosa. esse mar que não é o que. às vezes, eu olho o mar. às vezes, eu sou a poeira que, longe, suja pequenas poças de água. as mãos geladas. às vezes, não é. belo corcéu de vícios. corcéu glorioso que carrega até a próxima estação. um corpo entre outros. gloriosa companhia amarga. retiro na ilha dos mortos. este corcéu venturoso deixa seus pêlos grudados no estômago. eles entram, eles andam, eles são. às vezes, eu não quero ser um pêlo sujo na próxima estação. conversei com os homens da cidade, consultei aos grandes sábios. desse mundo que eu não quero mais. dessa beleza que eu não suporto mais. dessa onda torta que traga e leva aos que não têm cabelo. eu não suporto mais. eu não suporto. o mago na porta da cidade avisou os riscos que eu poderia correr. com escárnio, eu pareço inteligente. eu li muitos livros, não é mesmo? eu falo muito bem, não é mesmo? meu raciocínio é rápido e eu argumento muito bem. eu não. eu não quero mais. eu não posso. eu não suporto. eu ajoelho na frente deste homem velho. o maravilhoso ódio da criatura racional aponta. aponta e diz “fanático”. ódio. cães furiosos se despedaçando do lado de fora. cães de pêlos. eu não.

Junho 1, 2009

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 7:20 am

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avisto-te.

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avistas-me.

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quem sobre-vive?

Em branco e preto.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 6:19 am

I

Olá,

II

você quer dançar?

III

Eu não danço.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 5:57 am

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eu sou você e você sabe disso. o jogo é arma e nós somos segredo. somos irmãos andando pela porta. cataclismo. naquele evento, onde todos pareciam peixes enforcados em coágulos, eu te vejo nos olhos. eu sinto nojo de você. ó, sim, eu sinto nojo de você. eu sinto nojo e amo. eu amo. eu amo esta frieira que se coloca em seu pé. eu amo. eu amo o lugar onde te vi deitada a receber os raios solares. você é alcool e eu sou carnificina. você pode ver o sol em meus olhos. eu posso ver o nu nos seus. o meu nu. o seu nu. nos encontramos, nus, nos olhos. nos olhos, um touro alado. ele conversa. conversa como todos nós. e todos nós, em nós, nos deparamos com o atalho. eu posso te ver. você passeia. vamos, braços dados, até a próxima estação. nos despedimos, uma vez mais. uma vez mais, você fala. muda. muda, você fala como se eu não pudesse mais tocar a superficie de seu rosto. somos um rosto. uma careta.

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me irrito com suas vozes. me irrito com seus amigos. com seu corpete, sua nuca, seu eunuco, seu sombreiro, sua voz. você entende. então você faz silêncio. agrada-me a idéia de que… eu ouço. eu ouço enquanto você fala. você fala sobre alguma coisa qualquer. alguma coisa qualquer coisa você fala. há, aí, um jeito a se enquadrar. torço você.  você nunca esperou nada diferente, não é verdade? – fim da linha como trilha do passado. atalho. em retalhos, você se abre. combustão.

#1

linha afogada em desassossego. você observa da esquina. gata. você é animal. você é animal e, como animal, ruidosereia. há medo trêmulo. eu nojo amor todos nós espasmo assim com complica o plano de não ter nenhum plano e nós planos começamos a olhar de soslaio uns para os outros como quem não tem mais o que olhar e por isso olha o espelho olha a lua olha os estetas e graciosamente se enforca inferno.

#1 – primeira parte

no caminho de volta para a casa, isso tudo. isso tudo e você parece não perecer. melhor assim. melhor ainda se fosse verdade. de verdades, eu e você nos. então, nós paramos para apreciar algo. não é nada de verdade. de verdade, nós. haviam subterrâneos do lado de dentro, haviam coisas pelo. você parecia perecer. eu apareço. a parede. aparece. você.

# 1 – (p)arte secreta

eu juro que escuto que você tem muito o que dizer e eu juro que dizer é de fato dizer pois todo este pacote, este pacote, este pacote. este pacote. este pacote é. é e não. eu não. eu não. você. alguma coisa que… você esquece… eu esqueço… golpeie, golpeie… abaixo, eu vejo. eu vejo. eu vejo você. eu vejo você acima. você é o baixo, o chulo, o podre, o feio, o morto, o morno.

# 2 – declaração

eu amo você.

#3 – interrogação

quem sabe?

Poesia e distância.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 5:55 am

Uma estória de mãospés&bundas concebida à sombra de um gracejo vulgar.
Uma estória de mãospés&bundas concebida à sombra de um gracejo.
Uma estória de mãospés&bundas concebida à sombra.
Uma estória de mãospés&bundas.
Uma estória.
Nenhuma.

Já tudo morre, tudo cala, já

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 5:53 am

tudo morre, tudo cala. Em meio às ruínas do antigo lavatório, vemos a xícara de café, vemos a xicára, a xícara de café: des-con-tex-tu-a-li-za-da. Já tudo soma, tudo corre. Por sobre a escuridão galopante, a silenciosa e sacra expiação dos pecados de um homem. E é então que vemos os cadáveres que, os cadáveres. Os cadáveres que se elevam. Que se elevam por, que se elevam. Por sobre os mares. Por sobre as casas. Por sobre as casas. Casas, colinas, por sobre as florestas, por sobre as casas. Suspensos no ar que não mais prevê a queda. Que não mais prevê a queda. Em direção ao, ao universo. Em direção ao mínimo, ao universo mínimo em direção ao universo mínimo que um dia eu – - -

Prossiga.

Sonho apunhalado.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 5:42 am

Ontem um pássaro pousou ao parapeito da janela do vizinho e o vizinho não viu. O homem através da janela arrumou a cama, varreu o quarto; esperava por um telefonema que não veio. Sei que o pássaro ao parapeito da janela do vizinho não voltará a pousar ao parapeito da janela do vizinho, sei que o homem através da janela jamais receberá o telefonema pelo qual espera. O homem através da janela continuará a ser este vizinho descontente, atravessado de silêncios. Jamais poderei me esquecer do dia em que um pássaro pousou ao parapeito da janela do vizinho e o vizinho não viu. O homem através da janela esperava por um telefonema que não veio. Arrumou a cama, varreu o quarto, escreveu poemas, aprendeu piano, desenhou estrelas; acumulou o vazio de todas as tempestades. Morreu.

Monólogo às pedras.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 4:57 am

Atiro o drama pela janela, apago as luzes. Mire o mar em fúria, respire. Vejo sua imagem a roer rimas. Você me conta das caretas que faz pro escuro e eu, vazio, escuto. Naufrágio. Parecer relancear, vislumbre.

Lembranças. Um cigarro, uma idéia brilhante. Cheque o pulso. Um recorte, um retorno, uma praça, árvores. Um pijama, um mês, mais nada. Nada e esta voz aos poucos – soco surdo ao coração. Um sopro, um poema, nada, parte alguma. E nuvens, nuvens e mais nada. Silêncio extraordinário.

Esta voz, a voz, esta voz e então a voz, esta voz, a mesma, outra voz, nenhuma. O corredor é escuro, meu quarto é um labirinto.

À fresta com visão ao horizonte, o paraíso ao contrário.

Maio 31, 2009

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 6:35 pm

a) re-quebra

há duas cidades em sua sombrancelha esquerda. daqui, quase vejo os olhos. eu bebo. no lugar que você reservou ao calafrio, finas mãos complacentes. há a certeza. você não viu nada, eu vi você. eu você não vendo nada. me ofereço para ser seus olhos, até o lago. lá, você vê nascer o Sol.

b) paisagem

eu tenho um verme dentro de mim. eu tenho um verme dentro de mim. um verme que, aos poucos, aparece do escuro. um verme que aparece. eu tenho um verme. quando este verme se tornar uma úlcera, eu alimentarei esta úlcera dentro de mim. eu alimentarei a úlcera dentro de mim. alimentarei porque preciso de uma úlcera, de um verme dentro de mim.

c) de-lírio

na noite em que nos encontramos, uma multidão. é facil desenhar com os dedos em cada um, em todos, então te rabisco. se te encontrar mais uma vez essa noite, te quebro.

d) parque de diversões

você dedilha sua lira imaginária. cada corda toma toda a sala. transborda. na linha pontilhada, um ninho. eram não-sei-que-horas e não sabíamos o que fazer. sabíamos, na verdade. sabíamos. sabíamos bem. você sabe que sabíamos, sabíamos e ficamos por lá. sua lira me acaricia as pernas. você escopo.

e) uma mão

temor nas paredes do quarto infinito. era mentira. você aparece, aos poucos. aos poucos você aparece. e você vai aparecendo, aparecendo. aparecendo, você vai. então todos aparecem. todos aparecem. aos poucos, pela sombra. e aparece, aparece. o suficiente. tremor maravilhoso em cada corda.

Maio 28, 2009

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Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 4:57 am

Há uma coisa, entre o céu e a estepe, que pulula como crianças endemoniadas cheirando cocaína no jardim florido de seus pais maravilhosos. Uma coisa repugnante, se assim posso dizer, uma coisa que se move entre a poeira e as núvens de granizo. Uma coisa observada pelos olhos atentos  do assassino e uma coisa que parece expandir dentro do território nadificante dos horizontes humanos. Essa coisa se chama “gente simples”. Vomito de ódio e vocifero contra minha úlcera nervosa; enforco-me com minhas meias envenenadas e aponto minha arma contra essa aberração enojante. Aponto e aperto o gatilho. Eu poderia fazer uma aquarela em chamas e escrever, a canivete, uma carta nas costas de meu pai, mas ainda assim não seria o suficiente para dar nome à massa pulverizante  que se multiplica em progressão avassaladora e vasa por meus ouvidos peludos. A admiração aberrante ao sofrimento humano, a sofreguidão aplaudida com veneração religiosa ao asceta, a fala despretenciosa e o olhar humilde que clama por mais um aspiral de doenças: “compreensão”. Eu odeio a luz do dia e não sei o que é chorar. Meus canhões retinem e despedaçam as grandes portas de madeira; um furacão de serpentes venenosas é avistado colina-abaixo. Eu nunca poderei ser piedoso.

Maio 27, 2009

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Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 5:21 am

(parágrafo) Ressoam explosões: tempestades, canhões, valsa perseguida, obstáculos, cabeleiras sujas, madres esquálidas piolhentas. Ressoam vozes no quarto compacto que há na parte de dentro do crânio. Vazio, o viajante parte em busca de um gole de água fresca e erra pelo Deserto das Vertigens por quinze anos.

(parágrafo) Travesseiro esfaqueado na manhã de abril.

(parágrafo) Retocam sinos, ecos de igrejas barrocas; o relógio não pára de ressoar pela cidade fantasma. – jovens se esfregam em quartos de aluguel barato, velhas servem o jantar em algum calabouço requintado. Ruas de pedra e alguma droga no bolso do paletó.

(parágrafo) A expressão misteriosa se desfaz com um tiro na testa.

(parágrafo) Os gemidos dessa multidão invisível ressoam circulares aos olhos impassíveis da muralha de algodão molhado, minha nova namorada ri como um cardíaco terminal, joguei contra a parede  de corpos meu olhar idiota de romancista russo. Detesto chapéis, roupas escuras, maletas, papéis amarelados; detesto a noite, o vinho, os livros de capa preta, as prateleiras de supermercados empoeirados.

(parágrafo) Quando tudo se contorceu no firmamento, eu ri.

Maio 26, 2009

Eu chorava pelo caminho de volta…

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 5:54 am

…e, ainda assim, não sabia onde ia. Sabia por que chorava e só disso: não importava se o sol nasceria mais uma ou seis mil vezes, se o preço do macarrão estava alto, se mulheres nuas se beijavam sobre um palco ou se eu poderia rabiscar um verso de amor.

Doce adolescência chorosa, se emparedando em esquinas, se debatendo em quinas, se inflamando contra o vento; doce lágrima desfigurando o rosto sóbreo, perfurando cabanas abertas, violando colchões de ácido.

Sozinho, eu era toda a decadência.

Interessava-me o sabor da desordem e os números: quantas vezes mais eu poderia descer, quantos pesares eu poderia não-suportar, quantos rostos mais poderiam pisar sobre meu cadáver madrigal.

Doce tormento andando, nu, sobre as núvens; doce mulher se contorcendo no canavial; doce animal de crânio perfurado se empoeirando na beira da estrada.

Eu era só, sóbreo, e sobrava pelos cantos; me empacotava e saía louco por algum canto iluminado, morria quarenta e sete vezes por dia e pulava em carnavais de meus sonhos. Juventude ensaboada desfilando na prancha do navio fantasma. Eu era monstro e você se deslumbrava…

Agora eu escrevo, você lê.

Maio 13, 2009

Depois de subir e cair pelas escadas intedermináveis…

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 7:26 am

…dessa Paisagem Humana, abro a porta e me deparo com esse Grande Ventre, com esse festim de sangue-sugas que se fixam nas dobras do corpo umido em que, por um ou outro motivo, resolveram se alojar.  Transitam, os parasitas, pelo estômago do hospedeiro: é necessário que se arranque até a última gota de vida dele; é necessário que permaneça vivo –  já que os parasitas precisam de uma fonte de energia vital. A família sangue-suga parece se contorcer ao menor sinal de ausência de sua pétala de ouro: é preciso que demais famílias de seu micro-sistema a veja de um modo muito específico. Para isso, estouram suas ventas com todas as forças necessárias para provocar a boa-imagem. A boa imagem, todos sabem, consiste em portar ventas estouradas e se esgueirar à beira do Lodo enquando produz ruídos, ruídos, ruídos. Ruídos agudos repetitivos que provocam náuseas no hospedeiro que, vivo, relampeja ao menor sinal de morte. O hospedeiro não mede esforços para se manter impassível diante de todo o Apocalipse que presencia ao visualizar seu ante-braço direito e murmura semitons orgásticos ao se precipitar contra a janela. A voz estridente da parasita-mãe o danifica os ouvidos e dói, uma dor aguda, até os alicerces de sua cabeça piolhenta. Sua cabeleira espessa é amassada e desgrenhada por suas mãos nervosas e um espectador atencioso sabe bem o que pode acontecer. O que ninguém sabe é que este homem carrega o peso, não só deste mundo, mas de infinitos outros mundos em suas costas. Das costas aos joelhos, dos joelhos ao ventre, do ventre aos sapatos. Este homem anda de meias pelo asfalto quente noturno e atira os sapatos contra uma janela. O barulho da vidraça se estilhaçando é a única música que pode o fazer dançar.

Maio 4, 2009

Desconcerto.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 6:28 am

/// sei que um dia este poema também morrerá e junto a ele o fantasma que um dia você guardou e todas aquelas bonitas estórias e todos aqueles dias nublados e todos os céus e todas as casas todos os fogos os sonhos as roupas aos varais do mundo e as moças tristes escondidas por cobertores coloridos e os rapazes estranhos perambulando pelas calçadas das cidades mas eu hoje sou apenas este homem estranho à janela a revirar lembranças anoitecidas a reviver mentiras jamais ditas eu sou este silêncio a empilhar sombras esta mão cansada a esconder vertigens sempre a colecionar flores sem nome eu sou esta descarga alucinada de fiascos de impasses de estrelas de plástico de mórbidos desajustes e palavras palavras palavras socadas ao coração ao coração e ao coração mais nada ///

Abril 26, 2009

Soluço.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 6:38 am

- – - eu não posso caminhar ao seu lado minha querida eu não posso caminhar ao seu lado meu benzinho eu não posso mas um dia sei que poderá me perdoar sei que poderá rezar por mim dizendo ao seu deus que me ama e que vivo agarrado à sua retina e que sou o mais bonito poema que já lhe despencou à cabeça e então será feliz ao lado do joão e eu serei a sua mentira predileta - – -

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