- …uma pintura do Magritte, você viu?
- Sim.
- Frio demais. Gelado.
- Me parece decadente, caído à filosofia analítica: fria, burra e amargurada.
- É?
- Sim, à maneira de um Wittgenstein, um Russel…
- Vá à merda.
- Tenha calma, preste atenção: Magritte é um gênio. Assim como Russel e Wittgenstein.
- Só consigo entender esse “paralelo” se você estiver falando da meticulosidade, da frieza, da distância.
- Todos os três trabalham a Lógica. Magritte pensa pela pintura, ao contrário dos outros dois. E trabalha em uma inversão da Lógica, o que não deixa de ser lógico. Não propõe um jogo de multiplicidades.
- Certo, agora eu entendi o que quis dizer.
- O que você acha disso?
- Bem, é algo bastante óbvio: Magritte inverte a lógica mantendo-se lógico e lúcido. E o faz com frieza e meticulosidade. Witt e Russel trabalham a lógica com semelhante frieza e meticulosidade, porém propondo algo como “uma lógica dentro da lógica”. Diferente de Dalí, Miró ou até mesmo Chirico, Magritte não propõe nenhuma explosão, nenhuma multiplicidade.
- Sim, é por isso que tenho um pé atrás com Magritte. Claro, é um gênio. Indiscutível. Mas eu vejo genialidade não só na construção, veja bem, mas também nos caminhos que são traçados através desta genialidade. E, neste sentido, Magritte traça um caminho fechado às desrazões. É uma espécie de Kant: extremamente genial, mas um gênio que não conseguiu, no final das contas, contornar tudo.
- Bem, eu tenho uma queda por isso, você sabe.
- Uma queda pela queda, entendo.
- Exato.
- Mas aí existe outro jogo que considero particularmente interessante… Magritte é pintor, filósofo que pinta. Não escreve. Russel e Witt escreviam, Kant também. Isto é, por mais que Magritte trabalhe com uma filosofia sedentária, ele não a joga em um plano de exatidão, que é o propósito do conceito escrito. Assim a obra dele é aberta, quero dizer, pode-se ver, em sua obra, a desrazão pulsante. E sem que ele parta desta proposta.
- Excelente, perfeito.
- Você também ama Kant?
- Amo sua mamãe.