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Setembro 14, 2009

Canção do absoluto desprezo às senhoras que não são quentes.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 7:01 pm

“dentro de um segredo
imerso em quês
um homem
morre

morre
um homem
imerso em quês
dentro de um segredo”

.ebas méugnin euq o ies ue ,ebas méugnin euq o ies ue ,edrat ad éfac o ,satelam ,satenuLunetas, maletas, o café da tarde, eu sei o que ninguém sabe, eu sei o que ninguém sabe. O casal à viela estuporada à noite velada à luz alucinada dos olhos dos homens, lunetas, maletas, lunetas e solitários, lunetas e solitários, eu digo o poema, eu rio o poema, atiro o poema, cuspo o poema contra o espelho, contra o espelho sou o poema. Eu sou o poema. Atravessantes vagabundos nublados, esqua-qua-drinhados: lunetas, maletas e o café da tarde. Instante. O céu, um homem.

Setembro 5, 2009

PEDAÇO DE CORTINA

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 12:39 am

As horas descem

Esbarrando no telhado

Cravando marcas nas paredes

Beijando mãos hábeis

 

Crueza encrudescente

Copos ao céu

Corpos ao cão

Nasce a variz sangrenta

Nasce o flagelo do varão

 

Fogo cavidade fria

Luz primavera negra

Fósseis empalhados

Acuidade dia

 

A cuidar cansaço

Asco em dar casaco

 

Chuva sinfonia.

Agosto 31, 2009

DOIS VAGABUNDOS GORDOS

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 2:13 am

Os seres humanos são sacos de merda ambulantes. Então saímos por aí, nós dois. Nós dois, nós dois bandidos. Somos o Diabo , o Pecado, a Maçã. Nós dois mentimos, parco amigo. Porco amigo, irmão, divã. Nos encontramos no escuro. O brilho de nossos dentes é a Estrela  da Manhã. Meu igual, meu amarelo amigo, te jogo na cara essa página malsã. Pra você, que gosta da Valsinha, faço mais uma riminha de hortelã.

 

VENENO!

VENENO!

VENENO!

CANÇÃO DE AMOR INCINERADA

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 12:48 am

 Eu fico pensando

Pelas tantas da madrugada

Que esse sossego

Só pode existir

Se for com o seu chamego

 

Flor da manhã

Brilha durante a noite

 

Eu preciso do seu amor, benzinho

Nele, me afogar

 

Chego com calma

Desprendo meu sapatear

Três flores na boca

Baile de línguas fogo mar

 

Devaneio galopante

Sobre montanha de Lua

Durmo em você

Noite de blues frio

Trafegando pela maré

Criança-nuvem clara dia

 

Nos banhamos de ar

Re-pia.

JURAMENTO

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 12:43 am

Entregar-te-ei um presente

Um doce

Presente amarelado

Emaranhando cabeleiras rotas

Debruçado sobre seu ventre

Entre suas brumas frias

Suas montanhas brancas

Suas quentes Marias

 

Palco borrado navega em sonhos

 

De mãos dadas

Flutuante tarde fria

Cintilante véu branco

 

Nova estação colorida

Faces rosadas pela manhã

Demônios correndo pelo quintal

Sorrindo, vamos ao passeio

Pulando, bordando

Peles rasgadas do Céu.

Agosto 26, 2009

Aleggro iv

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 10:30 pm

eu sei que há uma montanha, do outro lado da ponte. sei dos surtos e dos suplícios, por isso passei quinze anos inventando a história da vida que eu vivi. eu vivi, de alguma forma, quero dizer. eu passava todas as horas do dia imaginando como seria se… bem, todos vocês tem uma ou mais pernas, não é bem verdade? Bem, eu falava sobre a minha história… lembro de homens que esbravejavam por praças e em ruas agitadas. cheiro de comércio e sangue de animais diluído em água e sabão. cães bebiam a água ensopada que deslizava pela viela; era água. como tal, molhada. o único critério para a água é que ela seja molhada. a água que se despeja lentamente no copo, que beija o fundo em alquimia cintilante, que molha as paredes circulares do topo e excede, em pouco ou muito, a borda delimitada para o encontro do recipiente com os lábios. a água é a ultraviolência e nasce em uma montanha, do outro lado da ponte. bilhetes adormecem aos pés da ponte e, como toda ponte, ela não faz nada. o sol estapeava a fronte adormecida do cão. o cão, ao se precipitar por sobre a ponte, caía dela. esmagado por uma carruagem, o cão é o berro absurdo que envolve todas as membranas da cidade. clarinetes de arcanjos trovejavam aos quatro cantos. com cuidado para não engolir um pêlo – para não entupir a garganta – é necessário se comer o gato. patas macias acariciam chão esmaltado. sobre o corpo da filha, o gato sem dizer palavra. seu rabo arrancado tremula pelos ares, sobre a montanha. se você encontrar seu reflexo. couraça mobilizada em sonho. todas as vozes ressoam. harmonia. enforcado.

Estribilho

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 6:09 pm

Encrave destoado
Adeus em silêncio
Lábios cortados
Núvens de suor
Peste
Pestanejo
Glória Esfinge
Licor
Suave rançoso firmamento
Linhas frágeis
Lagos, lábios
Raiz crista
Escorrer morro abaixo
Desabar mar adentro
À destra, claustro, canto
Cataratas cacarejando créu cruento
Semeando na montanha
Nos ares, pinhais
Prédios tremulam
Baterá asas diante seus olhos
Calafrio, confusão.

Agosto 17, 2009

Ad mi ração.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 4:39 am

Orquestra insolado
Suor sobre Mantra Sagrado
Prata o dia se atira do Telhado

Noite esfaqueada
Sangue cobre Manto Sacrado
Suave é o Tormento.

Agosto 7, 2009

Frango & alho.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 7:30 am

“…e quem disse que é da graça que se ri?”, escreve um fleumático Renato em 2006.

A pergunta, que é afirmativa de uma dúvida e, ao mesmo tempo, a abertura outras possibilidades (e impossibilidades) de riso, é resultante de um trabalho de esvaziamento do riso: é o enegrecer dos céus durante o desfile carnavalesco – fiasco de morte no círculo do riso.

Mais do que indagar o porquê do riso, Renato o coloca em xeque. Agora, no entanto, é hora de colocar Renato em xeque.

Proposição: Quem precisa dizer alguma coisa acerca de qualquer coisa para que essa coisa continue operando e, mais, construa, em maquinarias autopoiéticas, novas possibilidades de funcionamento?

Saindo da retórica (“quem é que disse o quê disse que quem disse o quê?”), é necessário que se delimite o que é riso e graça.

Riso, num primeiro momento – mesmo o amarelo ou a ironia venenosa –, é o intermezzo entre o ser e o sagrado: é a linha de conexão onde os fluxos se desordenam e, então, surge uma outra categoria que agora não discutiremos: o prazer.

Graça é o encontro do ser (é bom lembrar que por ser não se entende uma categoria identitária, mas uma imagem, um retrato – a fotografia não apreende uma realidade, retrata um microssegundo irrepetível) com o sagrado. É o êxtase alcançado pelo religioso quando em contato com o Divino, pelo drogado quando excede o limite da satisfação com a droga (quando é surpreendido pelo Excesso): é o orgasmo operando em um corpo, um corpo tomado pelo orgasmo.

Não é, pois, “da graça que se ri”; isso diria que é possível mirar a graça como um objeto externo ao ser e não se pode conhecer a graça senão quando em contato com Ela. Só se pode conhecer uma coisa quando se torna tal coisa. A vivência imediata do Sagrado é o conhecimento d’Ele; o riso é o estado de encarnação da graça.

Não se ri da graça, mas com a graça. Não há outra possibilidade de riso senão esta.

Julho 2, 2009

Abrigo secreto.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 7:02 am

Quando, Implacável & Escura
A Noite cái sobre a cidade
Tantos corpos, nus, passeiam silentes
Nas avenidas obtusas
Nas vielas de veneno

Sua crosta fria, grande manto
Círculo de fogo dança cataclisma
“Avise se as algemas ficarem desconfortaveis”
Todos soluçamos & nos desbaldamos
Sorrimos
Enquanto Ela
Nos cobre
Brônzeo mármore escuro
Fita inerte o Eterno Vale

Condenados ao Sol-pôr
Vida pulsando em cadáveres
Pausa convulsiva
Momento de calma
O objeto reluz ao escuro amorfo

Você morrerá até o nascer do Dia
Posso ver seus olhos enforcados
Cabelo retine Inferno cor

Não poderemos abandonar o______________

Nessa cela aquecida
Frio que invade as frestas
Queima os ossos
Em masturbação

Percorri as Sete Cidades
Pirâmides destruídas em miríades
Shiva que dança & rodopia

Outro lado

Muralha de corpos amontoados
Aglutinados
Espere um segundo
A criatura parece…

Espere!

A Fera está à solta!
A Fera está à solta!

Posso sentir seus passos em meu peito de negro
Bruxaria encardida
Trofeu de
Santuário respirante

A Fera está à solta!
A Fera está à solta!

A janela espera
Escorrer…
Escorrer…
Ex-correr

A Fera está à solta!
A Fera está à solta!

“Avise se as algemas ficarem desconfortáveis”

Cabaré incendiado num dia de verão
A morte dança, todos verão

Vocês podem ver?

A Fera está à solta!
A Fera está à solta!

Junho 28, 2009

Chovia, mas não chovia.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 8:44 pm

- …uma pintura do Magritte, você viu?

- Sim.

- Frio demais. Gelado.

- Me parece decadente, caído à filosofia analítica: fria, burra e amargurada.

- É?

- Sim, à maneira de um Wittgenstein, um Russel…

- Vá à merda.

- Tenha calma, preste atenção: Magritte é um gênio. Assim como Russel e Wittgenstein.

- Só consigo entender esse “paralelo” se você estiver falando da meticulosidade, da frieza, da distância.

- Todos os três trabalham a Lógica. Magritte pensa pela pintura, ao contrário dos outros dois. E trabalha em uma inversão da Lógica, o que não deixa de ser lógico. Não propõe um jogo de multiplicidades.

- Certo, agora eu entendi o que quis dizer.

- O que você acha disso?

- Bem, é algo bastante óbvio: Magritte inverte a lógica mantendo-se lógico e lúcido. E o faz com frieza e meticulosidade. Witt e Russel trabalham a lógica com semelhante frieza e meticulosidade, porém propondo algo como “uma lógica dentro da lógica”. Diferente de Dalí, Miró ou até mesmo Chirico, Magritte não propõe nenhuma explosão, nenhuma multiplicidade.

- Sim, é por isso que tenho um pé atrás com Magritte. Claro, é um gênio. Indiscutível. Mas eu vejo genialidade não só na construção, veja bem, mas também nos caminhos que são traçados através desta genialidade. E, neste sentido, Magritte traça um caminho fechado às desrazões. É uma espécie de Kant: extremamente genial, mas um gênio que não conseguiu, no final das contas, contornar tudo.

- Bem, eu tenho uma queda por isso, você sabe.

- Uma queda pela queda, entendo.

- Exato.

- Mas aí existe outro jogo que considero particularmente interessante… Magritte é pintor, filósofo que pinta. Não escreve. Russel e Witt escreviam, Kant também. Isto é, por mais que Magritte trabalhe com uma filosofia sedentária, ele não a joga em um plano de exatidão, que é o propósito do conceito escrito. Assim a obra dele é aberta, quero dizer, pode-se ver, em sua obra, a desrazão pulsante. E sem que ele parta desta proposta.

- Excelente, perfeito.

- Você também ama Kant?

- Amo sua mamãe.

Junho 26, 2009

Rascunho.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 2:22 am

/// o maço de cigarros ao canto da mesa o drama quantas vozes em minha cabeça estou sentado em um banco de praça e estou sentado em um banco de praça e penso em como sou idiota penso em como fiz sempre o pior a mim aos outros penso em como sou idiota penso em como sou idiota e sigo a pensar em como sou idiota sim um idiota estranho um idiota educado penso em como sou idiota e estou sentado em um banco de praça o maço de cigarros ao canto da mesa o poema quantas vozes quantas vozes quantas vozes em minha cabeça faz frio estou sentado em um banco de praça penso em como sou idiota sempre a remoer as velhas vulgaridades os mesmos desencontros sou culpado sou um idiota penso em minha culpa penso em como sou idiota meus ombros estão doendo meu estômago em cambalhotas e o maço de cigarros ao canto da mesa a promessa quantas vozes em minha cabeça quantas vozes meus sapatos são novos meus olhos estão ardendo eu não choro cigarros o cheiro do café penso em como sou idiota não choro lembranças estranhas penso em escrever um poema penso em como sou idiota idiota o maço o maço o maço de cigarros a mesa o maço de cigarros à mesa ao canto da mesa ao canto distância e penso em fugir digo que vou comprar cigarros digo que meu estômago explodiu digo que sou um idiota sigo a dizer imóvel louco permaneço quieto sorrio penso em como sou idiota digo o que não quero ouço o que não quero as palavras as palavras ouço ouço ouço o que não quero dói sou um idiota penso em como sou ao canto da mesa o maço de cigarros mil vozes em minha cabeça vou embora vou embora penso em como sou idiota eu não choro eu não choro eu não sinto eu não quero eu sorrio eu explico eu deformo eu não sei eu sou um idiota vou embora cigarros quantas vozes nenhuma naufrágio estou sentado em um banco de praça penso em como sou idiota vou embora preciso de uma aspirina vou embora penso em como sou idiota não me movo ///

Junho 25, 2009

Do amor idiota.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 4:10 am

/// Desvio o olhar à janela enquanto você mastiga mais um bocejo e as luzes de uma madrugada impossível atravessam nossos copos. Então o velho sonho se agita em descompasso e penso em mil maneiras de sair correndo sem ser percebido, mas continuo a revolver discursos, cálculos, fiascos, poemas escondidos sobre o patético, sobre os falsos dramas, sobre minhas velhas sombras, sobre como coça o meio da testa, sobre a forma com que une as sobrancelhas em um desenho infantil, um desenho infernal. E como se encolhe em sorrisos que rasgam o espírito. Jogos de promessas e a disposição dos corpos: um que flutua, outro que se arrasta; um que ri e o outro a desviar o olhar à janela enquanto você aperta mais um bocejinho, espremendo o queixo em uma trêmula tensão que acaba por se tornar o motivo de mais um verso manco do espetáculo mais triste do mundo. Mas rimos. Rimos e lá fora o céu em silêncio. E aqui dentro um crescendo de profusões catastróficas e o desencontro em desinteressantes harmônicos. Você com sua beleza a bocejar e eu a desviar olhares, a metralhar bobagens sobre o cenário. Você mais menina ao passar dos instantes, eu em profunda mutação nervosa, em uma espécie complexa de transfiguração que explode em uma imagem de monstro cada vez mais monstro, afundando-se no sofá, cada vez mais monstro, cada vez mais monstro. E todos os monstros teriam medo de mim, aquele que deflagrou o abismo, o mais feio e repulsivo dos monstros, o monstrinho de brinquedo esquecido ao canto do seu quarto. Não sou seu livro, não sou seu livro, mas te escrevo um poema e adeus. E enquanto percorro o caminho em regresso, penso em quebrar os vidros das janelas e enforcar o motorista. E enquanto percorro o caminho em regresso, fumo. E hoje o céu está claro, e hoje o céu está claro. Então fumo e brinco com uma maçã. Eu escrevo um texto, não é um texto, sobre a maçã, não é a maçã. Sigo adiante. Um rapaz se senta ao meu lado e mira o céu, uma moça cruza o espaço e mira o chão. Sei que foram feitos um para o outro. Mais um cigarro, minhas mãos não param de tremer. ///

Junho 19, 2009

Blues

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 5:56 am

Seu braço esquerdo encostado no Trago encardido concentrado no Você me encontra e eu estou Bem Bem como se eu estevesse Como era mesmo? Eu negro você Você me parece Tango que queda na multidão Gritam refrigerados Rodando Rodando Poeira deslizante no lugar do Canto encardido correndo pela infinita Cheiro complemento Lago Nadando Oh, sim.

Junho 17, 2009

Epifania encardida

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 5:33 pm

Glorioso estilingue. Gloriosa oração. Gloriosa chuva no Vale da Montanha. Gloriosos rochedos no centro da cidade. Chuva fina, alançante, calada. A única fala acontece quando nos tocamos. A pele grita. Claramente, ela olha para o lado. Claro é também o dia.

Esplendor ressecado perfumando ambiente cúmulo. Rosa que derrete na sombra. Na sombra, o proveta percebe que. Era o vento, dizia eu. Eu gostaria de dizer que. Ele requebra sobre as núvens, assiste o Infinito, chora no sossego, ri ao nascer do

Dia em que estávamos

Você se lembra, não é mesmo? Você se lembra. Chuva fina, alançante, calada. Claramente, ela olha para o lado. Claro é também o dia. Prateada, tomba a cabeça não-nascida. Não seria este o? Não seria este. Não seria. Não. Seria?

Fou sans roi.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 6:24 am

Hoje o silêncio explodiu, o velho sonho invadiu o quarto. De uma das pálpebras escapa ainda a imagem de uma puta que engole minhas cortinas, que ri, uma puta que ri, uma puta que engole minhas cortinas e que ri e segue rindo a engolir minhas cortinas rindo rindo rindo a puta engole minhas cortinas e lambe a luz atravessada à janela.

Hoje o poema morreu. Um gordo atravessa o céu em queda, o céu atravessa em queda um gordo. Silêncio,

hoje o silêncio explodiu.

Pimenta estranha.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 5:57 am

O homem vê a flor e chora.

Ei, você, menininha estranha, você, sim,

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 5:54 am

você chora antes de dormir? Você quer um poema de brinquedo? Qual foi a mentira mais bonita que já contou? Onde está seu papai? Quer um doce? Um segredo? Está com medo? Quer dançar?

Ei, você, menininha estranha, como é ser de papel?

Junho 10, 2009

A Farsa

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 5:07 pm

I

panorama em colapso o homem do nariz em frente à moça de vestido você não está com frio não não quer meu casaco não estou com frio é fim de tarde e o céu azul aos poucos se desbota em chumbo enquanto o homem do nariz dirige o olhar ao chão em um breve gesto de delicadeza contrária à própria imagem e a moça de vestido suspira um suspiro de desdém um suspiro tão triste tão triste ao homem do nariz que agora pensa em algo triste tão triste enquanto as luzes à distância se explodem com o cair da noite estranha

II

o que você quer me dizer eu não sei ao certo então o que viemos fazer aqui eu preciso dizer algo e a noite estranha ri do homem do nariz enquanto a moça de vestido cruza os braços em um um gesto simples rude e belo ao homem do nariz que sente o rosto arder contra o vento você pode me dizer o que quiser sim eu acho que posso acho que posso dizer o que quero mas eu não sei exatamente o que quero ao dizer qualquer coisa não seja idiota enquanto a moça de vestido sacoleja o corpo magro ao sinal do frio amargo que a desconcentra vamos lá diga o que quer dizer você está com frio já disse que não se estiver com frio quem sabe não possa vestir meu casaco não estou com frio seja rápido

III

o horizonte em convulsão e as gralhas loucas que mancham o silêncio que eu acho que te amo a noite dança e o vento alucinado sorri um sorriso em festa enquanto a moça de vestido mira com os olhos faiscantes toda a vergonha dobrada à sombra do homem do nariz não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja ridículo não seja não seja não não não seja ridículo não seja ridículo não seja não não seja não seja não

IV

o poema a palavra o verso a palavra o abismo a palavra o riso o drama a palavra a palavra a palavra eu preciso de uma aspirina

Junho 9, 2009

Sono de Antão.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 9:48 pm

Era silêncio e desordem para se fechar os olhos e as cortinas eram flores & cabeças. Fecho minha cabeça, enquanto a cara…

Era um deserto e ouvíamos miragens, miríades, mirras, urros, ilhas. Sono contra o vento. Os pés deslisavam nas sandalias empoeiradas e cruzavam florais…

Era um sonho o que eu tocavana superfície dos olhos. Você já cruzou uma parede de escarradas? É bom, não é?! Sobre a cama, pratos empilhados. E vem a despedida, a despedida. A DESPIDA. Era uma estória cantarolada pelo porco que tirava ovelhas velhas da cartola.

A anotação se incendiou depois de tocar as mãos do Ente. A presença cósmica invadia toda a aldeia e, mirados ao longe por uma coruja, homens histéricos entravam em frenesi. Cagavam pelas ruas sangrando à dentadas dos outros. Dentadas nas latas, nos cães, nas rãs, nos prédios, nas merdas.

A viela atrofiada se esbarra no fim da avenida. Lá, a Serpete se ajoelha. Chacoalha no crânio seco, sibila pelo mundo. Escorre por entre as gretas e nascem em quartos.

Sêmen delicadamente recebido nos seios.

Olhar que espirra espasmos. Espreitada pelos caçadores, a Humanidade se contorce ao firmamento. É o ciclo natural da vida. Deixo que me morda na mão. Doces dentes delicados. Dedos de cristal. Incêndio.

Na rosa, um ninho. Deus nasce. É gira-sol! É gira-sol! Posso o ver requebrando nos jardins acompanhado de animais delicados e demônios paternais. Todos giram. As flores pulsam o Nascimento. Brilham as estrelas da manhã, brilham os olhos, retinem acidentes.

Esfinge enforcada na calçada.

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