“…e quem disse que é da graça que se ri?”, escreve um fleumático Renato em 2006.
A pergunta, que é afirmativa de uma dúvida e, ao mesmo tempo, a abertura outras possibilidades (e impossibilidades) de riso, é resultante de um trabalho de esvaziamento do riso: é o enegrecer dos céus durante o desfile carnavalesco – fiasco de morte no círculo do riso.
Mais do que indagar o porquê do riso, Renato o coloca em xeque. Agora, no entanto, é hora de colocar Renato em xeque.
Proposição: Quem precisa dizer alguma coisa acerca de qualquer coisa para que essa coisa continue operando e, mais, construa, em maquinarias autopoiéticas, novas possibilidades de funcionamento?
Saindo da retórica (“quem é que disse o quê disse que quem disse o quê?”), é necessário que se delimite o que é riso e graça.
Riso, num primeiro momento – mesmo o amarelo ou a ironia venenosa –, é o intermezzo entre o ser e o sagrado: é a linha de conexão onde os fluxos se desordenam e, então, surge uma outra categoria que agora não discutiremos: o prazer.
Graça é o encontro do ser (é bom lembrar que por ser não se entende uma categoria identitária, mas uma imagem, um retrato – a fotografia não apreende uma realidade, retrata um microssegundo irrepetível) com o sagrado. É o êxtase alcançado pelo religioso quando em contato com o Divino, pelo drogado quando excede o limite da satisfação com a droga (quando é surpreendido pelo Excesso): é o orgasmo operando em um corpo, um corpo tomado pelo orgasmo.
Não é, pois, “da graça que se ri”; isso diria que é possível mirar a graça como um objeto externo ao ser e não se pode conhecer a graça senão quando em contato com Ela. Só se pode conhecer uma coisa quando se torna tal coisa. A vivência imediata do Sagrado é o conhecimento d’Ele; o riso é o estado de encarnação da graça.
Não se ri da graça, mas com a graça. Não há outra possibilidade de riso senão esta.