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Agosto 31, 2009

DOIS VAGABUNDOS GORDOS

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 2:13 am

Os seres humanos são sacos de merda ambulantes. Então saímos por aí, nós dois. Nós dois, nós dois bandidos. Somos o Diabo , o Pecado, a Maçã. Nós dois mentimos, parco amigo. Porco amigo, irmão, divã. Nos encontramos no escuro. O brilho de nossos dentes é a Estrela  da Manhã. Meu igual, meu amarelo amigo, te jogo na cara essa página malsã. Pra você, que gosta da Valsinha, faço mais uma riminha de hortelã.

 

VENENO!

VENENO!

VENENO!

CANÇÃO DE AMOR INCINERADA

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 12:48 am

 Eu fico pensando

Pelas tantas da madrugada

Que esse sossego

Só pode existir

Se for com o seu chamego

 

Flor da manhã

Brilha durante a noite

 

Eu preciso do seu amor, benzinho

Nele, me afogar

 

Chego com calma

Desprendo meu sapatear

Três flores na boca

Baile de línguas fogo mar

 

Devaneio galopante

Sobre montanha de Lua

Durmo em você

Noite de blues frio

Trafegando pela maré

Criança-nuvem clara dia

 

Nos banhamos de ar

Re-pia.

JURAMENTO

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 12:43 am

Entregar-te-ei um presente

Um doce

Presente amarelado

Emaranhando cabeleiras rotas

Debruçado sobre seu ventre

Entre suas brumas frias

Suas montanhas brancas

Suas quentes Marias

 

Palco borrado navega em sonhos

 

De mãos dadas

Flutuante tarde fria

Cintilante véu branco

 

Nova estação colorida

Faces rosadas pela manhã

Demônios correndo pelo quintal

Sorrindo, vamos ao passeio

Pulando, bordando

Peles rasgadas do Céu.

Agosto 26, 2009

Aleggro iv

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 10:30 pm

eu sei que há uma montanha, do outro lado da ponte. sei dos surtos e dos suplícios, por isso passei quinze anos inventando a história da vida que eu vivi. eu vivi, de alguma forma, quero dizer. eu passava todas as horas do dia imaginando como seria se… bem, todos vocês tem uma ou mais pernas, não é bem verdade? Bem, eu falava sobre a minha história… lembro de homens que esbravejavam por praças e em ruas agitadas. cheiro de comércio e sangue de animais diluído em água e sabão. cães bebiam a água ensopada que deslizava pela viela; era água. como tal, molhada. o único critério para a água é que ela seja molhada. a água que se despeja lentamente no copo, que beija o fundo em alquimia cintilante, que molha as paredes circulares do topo e excede, em pouco ou muito, a borda delimitada para o encontro do recipiente com os lábios. a água é a ultraviolência e nasce em uma montanha, do outro lado da ponte. bilhetes adormecem aos pés da ponte e, como toda ponte, ela não faz nada. o sol estapeava a fronte adormecida do cão. o cão, ao se precipitar por sobre a ponte, caía dela. esmagado por uma carruagem, o cão é o berro absurdo que envolve todas as membranas da cidade. clarinetes de arcanjos trovejavam aos quatro cantos. com cuidado para não engolir um pêlo – para não entupir a garganta – é necessário se comer o gato. patas macias acariciam chão esmaltado. sobre o corpo da filha, o gato sem dizer palavra. seu rabo arrancado tremula pelos ares, sobre a montanha. se você encontrar seu reflexo. couraça mobilizada em sonho. todas as vozes ressoam. harmonia. enforcado.

Estribilho

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 6:09 pm

Encrave destoado
Adeus em silêncio
Lábios cortados
Núvens de suor
Peste
Pestanejo
Glória Esfinge
Licor
Suave rançoso firmamento
Linhas frágeis
Lagos, lábios
Raiz crista
Escorrer morro abaixo
Desabar mar adentro
À destra, claustro, canto
Cataratas cacarejando créu cruento
Semeando na montanha
Nos ares, pinhais
Prédios tremulam
Baterá asas diante seus olhos
Calafrio, confusão.

Agosto 17, 2009

Ad mi ração.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 4:39 am

Orquestra insolado
Suor sobre Mantra Sagrado
Prata o dia se atira do Telhado

Noite esfaqueada
Sangue cobre Manto Sacrado
Suave é o Tormento.

Agosto 7, 2009

Frango & alho.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 7:30 am

“…e quem disse que é da graça que se ri?”, escreve um fleumático Renato em 2006.

A pergunta, que é afirmativa de uma dúvida e, ao mesmo tempo, a abertura outras possibilidades (e impossibilidades) de riso, é resultante de um trabalho de esvaziamento do riso: é o enegrecer dos céus durante o desfile carnavalesco – fiasco de morte no círculo do riso.

Mais do que indagar o porquê do riso, Renato o coloca em xeque. Agora, no entanto, é hora de colocar Renato em xeque.

Proposição: Quem precisa dizer alguma coisa acerca de qualquer coisa para que essa coisa continue operando e, mais, construa, em maquinarias autopoiéticas, novas possibilidades de funcionamento?

Saindo da retórica (“quem é que disse o quê disse que quem disse o quê?”), é necessário que se delimite o que é riso e graça.

Riso, num primeiro momento – mesmo o amarelo ou a ironia venenosa –, é o intermezzo entre o ser e o sagrado: é a linha de conexão onde os fluxos se desordenam e, então, surge uma outra categoria que agora não discutiremos: o prazer.

Graça é o encontro do ser (é bom lembrar que por ser não se entende uma categoria identitária, mas uma imagem, um retrato – a fotografia não apreende uma realidade, retrata um microssegundo irrepetível) com o sagrado. É o êxtase alcançado pelo religioso quando em contato com o Divino, pelo drogado quando excede o limite da satisfação com a droga (quando é surpreendido pelo Excesso): é o orgasmo operando em um corpo, um corpo tomado pelo orgasmo.

Não é, pois, “da graça que se ri”; isso diria que é possível mirar a graça como um objeto externo ao ser e não se pode conhecer a graça senão quando em contato com Ela. Só se pode conhecer uma coisa quando se torna tal coisa. A vivência imediata do Sagrado é o conhecimento d’Ele; o riso é o estado de encarnação da graça.

Não se ri da graça, mas com a graça. Não há outra possibilidade de riso senão esta.

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