Renato Ciacci e Tiago Barreto.

Junho 25, 2009

Do amor idiota.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 4:10 am

/// Desvio o olhar à janela enquanto você mastiga mais um bocejo e as luzes de uma madrugada impossível atravessam nossos copos. Então o velho sonho se agita em descompasso e penso em mil maneiras de sair correndo sem ser percebido, mas continuo a revolver discursos, cálculos, fiascos, poemas escondidos sobre o patético, sobre os falsos dramas, sobre minhas velhas sombras, sobre como coça o meio da testa, sobre a forma com que une as sobrancelhas em um desenho infantil, um desenho infernal. E como se encolhe em sorrisos que rasgam o espírito. Jogos de promessas e a disposição dos corpos: um que flutua, outro que se arrasta; um que ri e o outro a desviar o olhar à janela enquanto você aperta mais um bocejinho, espremendo o queixo em uma trêmula tensão que acaba por se tornar o motivo de mais um verso manco do espetáculo mais triste do mundo. Mas rimos. Rimos e lá fora o céu em silêncio. E aqui dentro um crescendo de profusões catastróficas e o desencontro em desinteressantes harmônicos. Você com sua beleza a bocejar e eu a desviar olhares, a metralhar bobagens sobre o cenário. Você mais menina ao passar dos instantes, eu em profunda mutação nervosa, em uma espécie complexa de transfiguração que explode em uma imagem de monstro cada vez mais monstro, afundando-se no sofá, cada vez mais monstro, cada vez mais monstro. E todos os monstros teriam medo de mim, aquele que deflagrou o abismo, o mais feio e repulsivo dos monstros, o monstrinho de brinquedo esquecido ao canto do seu quarto. Não sou seu livro, não sou seu livro, mas te escrevo um poema e adeus. E enquanto percorro o caminho em regresso, penso em quebrar os vidros das janelas e enforcar o motorista. E enquanto percorro o caminho em regresso, fumo. E hoje o céu está claro, e hoje o céu está claro. Então fumo e brinco com uma maçã. Eu escrevo um texto, não é um texto, sobre a maçã, não é a maçã. Sigo adiante. Um rapaz se senta ao meu lado e mira o céu, uma moça cruza o espaço e mira o chão. Sei que foram feitos um para o outro. Mais um cigarro, minhas mãos não param de tremer. ///

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