a) re-quebra
há duas cidades em sua sombrancelha esquerda. daqui, quase vejo os olhos. eu bebo. no lugar que você reservou ao calafrio, finas mãos complacentes. há a certeza. você não viu nada, eu vi você. eu você não vendo nada. me ofereço para ser seus olhos, até o lago. lá, você vê nascer o Sol.
b) paisagem
eu tenho um verme dentro de mim. eu tenho um verme dentro de mim. um verme que, aos poucos, aparece do escuro. um verme que aparece. eu tenho um verme. quando este verme se tornar uma úlcera, eu alimentarei esta úlcera dentro de mim. eu alimentarei a úlcera dentro de mim. alimentarei porque preciso de uma úlcera, de um verme dentro de mim.
c) de-lírio
na noite em que nos encontramos, uma multidão. é facil desenhar com os dedos em cada um, em todos, então te rabisco. se te encontrar mais uma vez essa noite, te quebro.
d) parque de diversões
você dedilha sua lira imaginária. cada corda toma toda a sala. transborda. na linha pontilhada, um ninho. eram não-sei-que-horas e não sabíamos o que fazer. sabíamos, na verdade. sabíamos. sabíamos bem. você sabe que sabíamos, sabíamos e ficamos por lá. sua lira me acaricia as pernas. você escopo.
e) uma mão
temor nas paredes do quarto infinito. era mentira. você aparece, aos poucos. aos poucos você aparece. e você vai aparecendo, aparecendo. aparecendo, você vai. então todos aparecem. todos aparecem. aos poucos, pela sombra. e aparece, aparece. o suficiente. tremor maravilhoso em cada corda.
Há uma coisa, entre o céu e a estepe, que pulula como crianças endemoniadas cheirando cocaína no jardim florido de seus pais maravilhosos. Uma coisa repugnante, se assim posso dizer, uma coisa que se move entre a poeira e as núvens de granizo. Uma coisa observada pelos olhos atentos do assassino e uma coisa que parece expandir dentro do território nadificante dos horizontes humanos. Essa coisa se chama “gente simples”. Vomito de ódio e vocifero contra minha úlcera nervosa; enforco-me com minhas meias envenenadas e aponto minha arma contra essa aberração enojante. Aponto e aperto o gatilho. Eu poderia fazer uma aquarela em chamas e escrever, a canivete, uma carta nas costas de meu pai, mas ainda assim não seria o suficiente para dar nome à massa pulverizante que se multiplica em progressão avassaladora e vasa por meus ouvidos peludos. A admiração aberrante ao sofrimento humano, a sofreguidão aplaudida com veneração religiosa ao asceta, a fala despretenciosa e o olhar humilde que clama por mais um aspiral de doenças: “compreensão”. Eu odeio a luz do dia e não sei o que é chorar. Meus canhões retinem e despedaçam as grandes portas de madeira; um furacão de serpentes venenosas é avistado colina-abaixo. Eu nunca poderei ser piedoso.
(parágrafo) Ressoam explosões: tempestades, canhões, valsa perseguida, obstáculos, cabeleiras sujas, madres esquálidas piolhentas. Ressoam vozes no quarto compacto que há na parte de dentro do crânio. Vazio, o viajante parte em busca de um gole de água fresca e erra pelo Deserto das Vertigens por quinze anos.
(parágrafo) Travesseiro esfaqueado na manhã de abril.
(parágrafo) Retocam sinos, ecos de igrejas barrocas; o relógio não pára de ressoar pela cidade fantasma. – jovens se esfregam em quartos de aluguel barato, velhas servem o jantar em algum calabouço requintado. Ruas de pedra e alguma droga no bolso do paletó.
(parágrafo) A expressão misteriosa se desfaz com um tiro na testa.
(parágrafo) Os gemidos dessa multidão invisível ressoam circulares aos olhos impassíveis da muralha de algodão molhado, minha nova namorada ri como um cardíaco terminal, joguei contra a parede de corpos meu olhar idiota de romancista russo. Detesto chapéis, roupas escuras, maletas, papéis amarelados; detesto a noite, o vinho, os livros de capa preta, as prateleiras de supermercados empoeirados.
(parágrafo) Quando tudo se contorceu no firmamento, eu ri.
…e, ainda assim, não sabia onde ia. Sabia por que chorava e só disso: não importava se o sol nasceria mais uma ou seis mil vezes, se o preço do macarrão estava alto, se mulheres nuas se beijavam sobre um palco ou se eu poderia rabiscar um verso de amor.
Doce adolescência chorosa, se emparedando em esquinas, se debatendo em quinas, se inflamando contra o vento; doce lágrima desfigurando o rosto sóbreo, perfurando cabanas abertas, violando colchões de ácido.
Sozinho, eu era toda a decadência.
Interessava-me o sabor da desordem e os números: quantas vezes mais eu poderia descer, quantos pesares eu poderia não-suportar, quantos rostos mais poderiam pisar sobre meu cadáver madrigal.
Doce tormento andando, nu, sobre as núvens; doce mulher se contorcendo no canavial; doce animal de crânio perfurado se empoeirando na beira da estrada.
Eu era só, sóbreo, e sobrava pelos cantos; me empacotava e saía louco por algum canto iluminado, morria quarenta e sete vezes por dia e pulava em carnavais de meus sonhos. Juventude ensaboada desfilando na prancha do navio fantasma. Eu era monstro e você se deslumbrava…
Agora eu escrevo, você lê.
…dessa Paisagem Humana, abro a porta e me deparo com esse Grande Ventre, com esse festim de sangue-sugas que se fixam nas dobras do corpo umido em que, por um ou outro motivo, resolveram se alojar. Transitam, os parasitas, pelo estômago do hospedeiro: é necessário que se arranque até a última gota de vida dele; é necessário que permaneça vivo – já que os parasitas precisam de uma fonte de energia vital. A família sangue-suga parece se contorcer ao menor sinal de ausência de sua pétala de ouro: é preciso que demais famílias de seu micro-sistema a veja de um modo muito específico. Para isso, estouram suas ventas com todas as forças necessárias para provocar a boa-imagem. A boa imagem, todos sabem, consiste em portar ventas estouradas e se esgueirar à beira do Lodo enquando produz ruídos, ruídos, ruídos. Ruídos agudos repetitivos que provocam náuseas no hospedeiro que, vivo, relampeja ao menor sinal de morte. O hospedeiro não mede esforços para se manter impassível diante de todo o Apocalipse que presencia ao visualizar seu ante-braço direito e murmura semitons orgásticos ao se precipitar contra a janela. A voz estridente da parasita-mãe o danifica os ouvidos e dói, uma dor aguda, até os alicerces de sua cabeça piolhenta. Sua cabeleira espessa é amassada e desgrenhada por suas mãos nervosas e um espectador atencioso sabe bem o que pode acontecer. O que ninguém sabe é que este homem carrega o peso, não só deste mundo, mas de infinitos outros mundos em suas costas. Das costas aos joelhos, dos joelhos ao ventre, do ventre aos sapatos. Este homem anda de meias pelo asfalto quente noturno e atira os sapatos contra uma janela. O barulho da vidraça se estilhaçando é a única música que pode o fazer dançar.
/// sei que um dia este poema também morrerá e junto a ele o fantasma que um dia você guardou e todas aquelas bonitas estórias e todos aqueles dias nublados e todos os céus e todas as casas todos os fogos os sonhos as roupas aos varais do mundo e as moças tristes escondidas por cobertores coloridos e os rapazes estranhos perambulando pelas calçadas das cidades mas eu hoje sou apenas este homem estranho à janela a revirar lembranças anoitecidas a reviver mentiras jamais ditas eu sou este silêncio a empilhar sombras esta mão cansada a esconder vertigens sempre a colecionar flores sem nome eu sou esta descarga alucinada de fiascos de impasses de estrelas de plástico de mórbidos desajustes e palavras palavras palavras socadas ao coração ao coração e ao coração mais nada ///