Renato Ciacci e Tiago Barreto.

Março 14, 2009

Pálpebras.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 5:48 pm

Às vinte e duas horas em frente ao Inferno, estou bêbado. Duas meninas passam por mim de mãos dadas e me pedem um cigarro, elas querem um cigarro. As duas menininhas pensaram em mim por alguns instantes, eu sei. Olha aquele cara ali, a gente pode pedir o cigarro pra ele. Me vêem de longe, afrouxam os passos, me medem com calma e atenção, eu não pareço perigoso. Não me acham estranho o bastante para que deixem de pedir o cigarro. É engraçado. Um ou dois? Um só, é pra ela. Eu estendo a mão com o isqueiro, elas já foram embora. É engraçado. Estou exposto às vinte e duas horas, em frente ao Inferno. Resolvo atravessar a avenida, resolvo atravessar a avenida, atravesso a avenida. Estou dentro deste bar ao outro lado da avenida, meu espírito ainda cravado às vinte e duas horas, em frente ao Inferno, ao outro lado da avenida. Ela chega, não sei se devo me levantar. Ela diz algo alegre e confuso, se inclina sobre mim e beija a minha bochecha. Termino a dose, peço outra dose, a dose, mais uma. Estou dentro do banheiro feminino. Existe uma moça de joelhos bem exposta à minha frente, faz o que acha que deve ser feito. Enxergo as pastilhas de porcelana, as pastilhas de porcelana. É engraçado. Estou em um quarto bonito, existe uma moça em cima de mim, existe o teto. Eu não sei onde estou e preciso dormir um pouco. A moça me pede um soco, ela quer um soco na boca, eu não sei onde estou e ela quer um soco na boca, um soco no olho, eu não quero um soco na boca, eu não quero um soco no olho e eu não sei onde estou. Estou bêbado, a moça quer um soco. Eu poderia receber um soco, eu não me importaria em receber um soco, mas não quero um. Eu não sei onde estou. Instante agudo em suspenso, eu não sei onde estou. Resolvo atravessar a avenida, resolvo atravessar a avenida, a avenida, atravesso a avenida e sigo a atravessar as avenidas. Às vinte e duas horas em frente ao Inferno, eu preciso de mais um dose.

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