Renato Ciacci e Tiago Barreto.

Dezembro 24, 2008

Bocejo.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 7:31 am

Galochas amarelas dentro da noite escura dentro da noite escura. Dentro da noite, mais de mil gatos nos telhados dentro da noite escura. E insetos a cochicharem cochichos dentro da noite escura. E lembranças tristes de verões, outonos, invernos, primaveras estranhas. Equinócios e solstícios. E absurdos cálculos, muitos cigarros. E o vício rouco de falar bem pouco sobre as coisas. Todas elas mal faladas, mal entendidas, suspeitas. Dias mais curtos, noites mais longas, terríveis caretas em frente ao espelho do quarto de dormir. E na antiga cômoda – herança de família -, comprimidos verdes, vermelhos, azuis, amarelos. Galochas amarelas dentro da noite escura onde as luzes não param de tremer, onde os bêbados silenciosos trançam pernas e os casais nas janelas das casas juram amores loucos com seus corpos, suas línguas. E seus cães a espreitarem a noite e a dividirem a falsa calma das ruas. E quando um late, todos latem, e quando um uiva, todos uivam. E seguem a espreitar o escuro das horas até que alguém tropeça e resolve se lembrar de como era a vida antes que a vida se tornasse aquilo de mais temível, aquilo de mais repugnante que hoje a vida é. E então pára à esquina de uma viela, urina e chora. E segue dentro da noite escura como se nada houvesse acontecido, como se nada jamais houvesse acontecido. E chora. E segue a trilhar seu caminho dentro da noite escura como quem reza. E do outro lado da cidade, pupilas dilatadas, a menina dança e o velho senhor dorme seu último sono como se nada jamais houvesse acontecido. E segue a babar aos lençóis amarelos. Galochas amarelas dentro da noite escura dentro da noite escura. Dentro da noite, mais de mil mentiras. E uma memória perdida à luz de uma química transloucada. O ar vibra e as invisíveis nuvens se sacodem de um susto. Mas a noite não tem pressa, a noite sem lua é este sem fim de sacolejos surdos onde a cabeça queima e jamais tombará.

Gurgulhar de esgoto.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 6:10 am

~ jaula escura de um escuro inescrutável que dobra meu silêncio em mil zeros e nenhum e pantufas rosas azuis de um absurdo colorido qualquer nenhuma cor e me chamam de louco e me vestem mais ou menos assim assado abaixo do sol e fazem perguntas sorriem seguem e eu fico na jaula escura de um escuro de noite inescrutável que dobra meu silêncio até ele ficar assim pequenininho do tamanho de um pequeno passarinho dentro de outro pássaro dentro de outro e outro pássaro e passo no escuro inescrutável da minha jaula não me sinto aborrecido nem fatigado me sinto e descubro novos mundos mudos e os cubro denovo colocando as mãos no meu rosto inchado com toda a vergonha que cabe em um coração mal contado e me vejo então de pantufas em uma roupa toda escura de um escuro inescrutável das velhas vielas perdidas nas noites mexicanas de trapos farrapos e mil cento e um gatos nos telhados na noite de um escuro muito escuro o mais escuro de todos os escuros e percebo que não sou eu nem ninguém nem dentro ou fora nem fora eu nem ninguém era e escrevo no bloco da vizinha doente 4 DE NOVEMBRO de um ano barulhento cada um olhando pro éden daquele cada um que cada um tem dentro de si ~

Sr. Pim e a Pedra.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 1:45 am

2 + 2 = ?

Como você lida com seus fracassos e frustrações? Enche a bunda de álcool?

Também, mas de vez em quando eu gosto de deixar que eles me chicoteiem. Você sabe, o fracasso, a frustração, o medo, a fadiga, a alegria… São alteradores de percepção.

Não, eu não sei. E o que você consegue tirar disso?

Esta é uma questão que não se coloca. Se eu soubesse o que daí se tira, não precisaria experimentar. Há de se trocar a interpretação pela experimentação.

E você nunca se cansa?

O cansaço é mais um alterador de percepção.

Um método sem buracos, é isso? Você nunca cai?

Claro. Mas aí há, também, a experimentação da queda. Quer dizer, no final das contas, você sabe, a vida continua. Então vive-se sem grandes escolhas. Anote: o melhor é criar situações em que suas não-escolhas sejam guiadas de forma absurdamente imprevisível.

E essa posição é seguramente mais interessante do que a reclusão total em si mesmo? Melhor um errante atirado à vida ou uma pedra encrostada em si mesma?

Esta reclusão de que fala pode transmutar-se ao seu contrário e vice-versa. Quero dizer, vive-se, experimenta-se a reclusão. A pedra está vivendo como pedra, mas não é pedra.

E o errante é errante?

Errante é a condição de quem está vivo. Está vivo e não sabe de nada. A pedra é errante: erra como pedra. Eu não posso atestar que há alguma coisa. Inclusive esta minha posição não pode ser atestada, então a lógica morre. Anote: é bom reconhecer que as coisas não são como gostaríamos que fossem.

Então o melhor a ser feito é saborear tudo, absolutamente tudo? Se meter à vida deliberadamente? Até o coração parar?

Você está querendo uma possível fórmula. Não sei se funcionaria para você como funciona para mim. Mas saiba: há diferentes formas de se experimentar tudo. Ser pedra é uma delas. Eu falo da fórmula mais radical do não-saber, da resignação diante a imprevisibilidade das coisas, mas é também uma revolta contra o tédio. Talvez os caminhos da imprevisibilidade nos levem à morte ou ao Inferno, mas você apenas saberá disso atirando-se neles. Um caso: você não sabe o que vai acontecer naquela mesa, mas deseja que aconteça certas coisas. Seu interlocutor está na mesma. Não há como prever correspondências às expectativas desejantes, já que o que se deseja modifica-se junto às condições situacionais. É assim com um livro ruim, um passeio na avenida. Anote: as experiências mais intensas proporcionam as mais intensas alterações.

E quando se tem medo daquilo que é intenso? Quando há um certo desgosto em relação à possível intensidade das coisas, e junto a este desgosto, certo fascínio? Eu me sinto mal e acabo supondo que qualquer trepidação beira o fatal.

E qual é o problema com isso? Qual é o problema com o fatal?

Eu não sei.

Se sente mal por ainda não ter descoberto seu CORPO SEM ORGÃOS¹.

Me sinto mal por ser um conservador, um sério à merda, um fraco à vida. Me sinto mal e gostaria de fazer algo com isso.

Procura preservar-se mantendo-se à superfície das coisas. O que não sabe é que sua idéia de preservação se modificará, pois logo encontrará seu CORPO SEM ORGÃOS atirando-se às experimentações.

Você tem um mapa?

Você não precisa de um. Anda se enfiando em estados que te torturam, encontrará seu NOVO através das experiências de TORTURA.

Você acha?

Eu?

¹ Artaud.

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