E é então que você pode ver aquele homem pregado ao crucifixo pregado à parede do quarto. E você chora um pouquinho e é só este pouquinho e basta e sempre bastará. Pois há um pássaro, há um pássaro, devo dizer, um pássaro agourento a sobrevoar esta cama, sim, há um terrível pássaro a sobrevoar minha cama e há coisas, coisas loucas acontecendo dentro deste cômodo, sim. E é então que você chora aquele pouquinho de inveja atravessada à garganta doente, esta garganta doente que não emitirá mais nenhum gracejo, nenhum som, nenhum ruído. E esta cabeça é uma cabeça feia e suja, uma cabeça imunda, uma imunda cabeça de doente terminal onde pousam todos os tipos de insetos, sim, todos os tipos de insetos nesta bonita cabeleira de homem bom, de homem justo, de homem que sabe os nomes das flores, que conta até o infinito e que um dia amou uma pedra ou duas. E o homem pregado ao crucifixo pregado à parede do quarto branco de doente terminal. E as estrelas pintadas à janela. E o silêncio por detrás da pobre mobília deste quarto branco de doente terminal. A cortina que dança pela manhã, o vidro ensebado do falso vaso à mesa, a falsa flor ao falso vaso à mesa, a mesa, sim, a mesa, e a máquina barulhenta em festa, e uma maçã, uma maçã neste cômodo, uma maçã, um ventilador ao teto e um homem pregado ao crucifixo pregado à minha cabeça piolhenta de doente terminal à merda. Volteia o pássaro à cama, a cama ao pássaro, o ar estranho em assaltos secretos contra as brancas paredes do quarto de doente terminal terminando, terminando, terminando. Eu sou esta voz alucinada em surdina, esta voz no crânio do homem preso à cama, do homem pregado ao crucifixo pregado à parede do quarto, sou este cochicho à náusea, esta violenta voz sem voz, sem nome, sem nada. Eu sou este quarto sempre aceso, sempre escuro, sou o segundo estático da queda em suspenso e sinto muito frio.
Novembro 30, 2008
Novembro 26, 2008
Klunk!
Eu era pobre e vivia em uma casa cheia de insetos. Não, eu era rico. Sim, rico, e vivia em uma casa estranha ao pé da Colina dos Porcos. Eu era um homem simples, um simples homem rico a viver ao pé da Colina dos Porcos. E eu era feliz, tão feliz, de uma felicidade que, não, eu não era um homem feliz. Não, mas nem triste eu era. E eu era um homem. Bloom estava lá, Jakobson – o Osipovich – também. E eu vivia em uma bela casa que de tão estranha deitava-se ao pé da colina e o pé da colina era como um pé de gente, um pé dessa gente embaralhada por aí, um pé como um pé outro qualquer e sempre o mesmo pé, mais nada. Eu era pobre e vivia ao pé da colina e a colina era boa, justa e boa colina erguendo-se da terra a não poder mais, colosso rochoso a fender as baixas nuvens do céu. Do céu, mais nada. E a elevar-se a colina selvagem rasgando o doce ar suspenso dos agostos tenebrosos, ai de mim, sim, eu era um homem bom e devia ser poeta. E eu não era mesmo um homem, eu não era uma mulher, e nem bicho eu era, e vivia ao pé da Colina dos Porcos, mais nada. Hm, hm, sim. E que Deus tenha piedade de minha
Novembro 19, 2008
PARA MEDITAR:
“Malditos pássaros, os desgraçados ainda não entenderam que o mundo acabou e continuam cantando como se um novo dia estivesse nascendo.”
Mahatma Gandhi
Novembro 18, 2008
Burroughs ac(alentado)orrentado.
Cenário:
Banheiro comum (vaso, bidê, pia, espelho chuveiro) com centenas de pentes jogados sobre o chão. A iluminação é constituída por uma luz que vem de um dos cantos das paredes e, em outra extremidade, da luz acima do espelho da pia. Os personagens aparecem descabelados.
Personagens:
MICHKINE – Homem gordo.
KIRILOV – Homem muito gordo.
NASTENKA – Mulher magra.
A cena se passa em algum lugar do Irã, à noite.
MICHKINE
(olhando no espelho, falando aos dois)
Estou me viciando em cigarro… que inferno. Mas tá lindo, eu pretendia me viciar pra ter que lutar contra o vício… Tá divertido. Tem um maço dos mais fortes na sala, mas não vou fumar.
KIRILOV
(virando-se para MICHKINE e falando rapidamente)
Não existe uma sala, não aqui.
(NASTENKA começa, nesse momento, a arrancar as sobrancelhas)
NASTENKA
Viciou, amigo.
KIRILOV
Não fume.
NASTENKA (sorrindo)
Faz bem pro coração!
MICHKINE
Não fumar?
NASTENKA
Fumar.
MICHKINE
Não tô afim de um vício agora, não mesmo…
NASTENKA (interrompendo)
(calma) Estou na Irmandade Sagrada… (um segundo, assusta-se ouvindo a frase de MICHKINE) Bah, e o que são os vícios?! – Comida é um vício, o ar é um vício, morrer é um vício…
MICHKINE (interrompendo e saindo)
Bem, vou escovar os dentes…
NASTENKA (bufando)
Isto também é um vício!
KIRILOV (exautado)
Sim, um vício do caralho essa merda desse fio-dental… Não sei como você foi se enfiar nisso. (coloca as mãos sobre a cabeça, aterrorizado)
NASTENKA (preocupada)
Pois é… olha só que absurdo! (doce) Vai perder todos os seus amigos por causa disso.
(Pausa de 23 segundos e meio)
(Fecham-se as cortinas)
Fim.
Novembro 11, 2008
Quando a janela e o cigarro parecem uma garrafa de água.
Entro no quarto da moça do rio
e rio de suas anotações
Rio como quem vacila
Li suas linhas vacilantes
enquanto ouvia música
notas tristes me alegrando
Então eu vou para o segundo andar
e começo a falar
de posições sexuais desastrosas
Catástrofes nucleares
e cinzas em decomposição
Na curvatura das costas
ela tem um símbolo indígena
“MORTE PREMEDITADA POR ACIDENTE”
Assim, os dois pegam os copos
E saem.
Eu tenho essa ferida
e um objeto mágico.
Emerson Ciacci Barreto.