Renato Ciacci e Tiago Barreto.

Outubro 24, 2008

Não sei.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 9:00 pm

Eu estáva, junto de mamãe, passeando pela rua de nosso bairro a ad-mirar a beleza de mirras e, de quando em vez, dando leves espirros. Mamãe é uma mulher muito educada e elegante, me ensinou sobre a beleza melancólica e serena dos romancistas russos enquanto estava de cólica. Mamãe, quando ria, colocava a mão esquerda – com sua leve luva – frente à delicada boca. Mamãe usava um cano de revolver como tamanco. Suas verdes sandálias acariciavam o chão de nosso bairro naquele dia. Eu, certa vez, a ouvi falar sobre passarinhos, mas tive vergonha de aprender o que minha idade não podia entender. Há coisas na vida que não há como compreender – ouvi em algum lugar. Talvez na sala de jogos que mamãe freqüentava.

Estou aqui nesta cidade fria e sinto saudades de mamãe. Aqui o vento é fresco e me sinto muito feliz por estudar Piano e Idiomas, mas o brilho do sorriso dos estudantes me causa tanto pavor. Não é pavor a palavra certa, eu acho, mas é uma espécie de ar quente e sufocante que me sobe pelos trilhos da garganta e acaba por estourar meus miolos. Certamente, fixou morada em meu estômago: é lá que o sinto revirar quando não consegue me aturdir e procriar como faria um coelho. Há algo de coelho nele, é bem verdade, talvez daquele que enforquei em um ataque de nervos no deserto.

Mamãe usava cachicol e teve, me parece, uma idéia estranha com ele.

Estou sentado em uma pilha de crack. Beije-me.

Outubro 15, 2008

Somos todos filhos da Internet.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 3:21 am

-Agora eu preciso é dormir, tô babando de sono. Durma com Cristo, meu bem.
Fiz cocô em Roma, 1217. Comi uma lhama no deserto da Galiléia – não havia sal nem fogo -, guardei a pele do animal.
E neste dia dancei com um pato chamado Suf-Ahamur (e ele tinha um cheiro estranho de baunilha enforcada!), ganhei sapatos e nunca mais andei de pés descalços. E eu tinha água, pão e mel para os momentos tristes. E cantava assim:
“Laralá, lálá, laralá, lálálálá.
Hm, hm, laralá-lálá, tchilk!”
Não há razão para falar sobre o pequeno Gulik, nem sobre sua porta falastrona.
E encontramos Márcia Curva na rua por detrás do bordel. E ela dizia palavras de trás pra frente, a carta d’O Sacerdote colada à testa.
A casa caiu.

-E daí, o que vem? Calma, senhor Renato. O senhor, por acaso, está ficando louco?E quanto a missa?
-Eu renego a missa e o batismo. E pau no cu da vida. Beijo no ânus, boa noite.

Outubro 12, 2008

Amanhece.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 11:41 am

A noite escura escapa da janela, o amanhecer respira com violência. Percebo os azuis vertiginosos a se abaterem por sobre os edifícios, o ar violáceo a engolir minha cortina, os segundos carregados de faíscas. Em breve o violeta que lambe as casas ganhará a força elétrica do amarelo em festa, este amarelo que é como a gênese do desespero, a explodir vivo e homérico por sobre os homens.

E então que tudo vá à merda.

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