Eu estáva, junto de mamãe, passeando pela rua de nosso bairro a ad-mirar a beleza de mirras e, de quando em vez, dando leves espirros. Mamãe é uma mulher muito educada e elegante, me ensinou sobre a beleza melancólica e serena dos romancistas russos enquanto estava de cólica. Mamãe, quando ria, colocava a mão esquerda – com sua leve luva – frente à delicada boca. Mamãe usava um cano de revolver como tamanco. Suas verdes sandálias acariciavam o chão de nosso bairro naquele dia. Eu, certa vez, a ouvi falar sobre passarinhos, mas tive vergonha de aprender o que minha idade não podia entender. Há coisas na vida que não há como compreender – ouvi em algum lugar. Talvez na sala de jogos que mamãe freqüentava.
Estou aqui nesta cidade fria e sinto saudades de mamãe. Aqui o vento é fresco e me sinto muito feliz por estudar Piano e Idiomas, mas o brilho do sorriso dos estudantes me causa tanto pavor. Não é pavor a palavra certa, eu acho, mas é uma espécie de ar quente e sufocante que me sobe pelos trilhos da garganta e acaba por estourar meus miolos. Certamente, fixou morada em meu estômago: é lá que o sinto revirar quando não consegue me aturdir e procriar como faria um coelho. Há algo de coelho nele, é bem verdade, talvez daquele que enforquei em um ataque de nervos no deserto.
Mamãe usava cachicol e teve, me parece, uma idéia estranha com ele.
Estou sentado em uma pilha de crack. Beije-me.