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Agosto 25, 2008

Masturbação.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 11:26 am

…há, nesse mundo de areia, quem goste de macarrão, quem goste de literatura folhetinesca, quem goste de cinema avant-garde, de espionagem italiana, quem goste de sucata envernizada, de museus, de obras de arte, de filosofia Antiga, arte abstrata, paredes azuis, brancas, silêncio, valsa poética nas quartas, entonações semilíricas, equações de sétimo grau, sete pés de terra, estações rodoviárias pintadas de amarelo e laranja, água quente de chuveiro pelas manhãs, amores intensos, festivais de teatro gangster, chapéis-de-coco, água limpa pra lavar as mãos depois do almoço, carne cozida na esquina do açougue que já fechou, lembranças da infância, membranas cortadas com ferro enferrujado num dia ensolarado, asma, bronquite, esportes olímpicos durante as férias, cerveja gelada, fio-dental às quatorze horas e dezessete minutos, há quem goste de flores, de literatura clássica, de colagens transgressoras, de roupas de palhaço, de andar pela cidade durante a madrugada, bebida cara, cigarros de filtro vermelho, de cães áridos procurando pelo Sinal, de semiologia literária ao molho pardo, sinalização, policiais vestidos de amarelo andando na praia deserta, pirulitos de dentistas clautrofóbicos, há quem goste de voar de avião com almofadas vermelhas, poesia prática em dias chuvosos, cantos de pássaros pelas manhãs de setembro, valsa amorosa nas terças de maio, manifestações de operários esquálidos, frio de inverno, catedrais colossais que parecem respirar ofegantes, religiões orientais, cotonete depois do banho, caixas de som amplificadas, idiotas com cara de espertos definhando por detrás de um monitor radioativo, transmissões radiofônicas de Antonin, óperas obsoletas da minha mãe morrendo, retórica espacial universitária, leituras de blogs taquicardíacos semitonados e ré-sustenido por dois deficientes físicos que ditam seus delírios para secretárias nuas sem sombrancelhas digitarem em rítmo fleumático, há quem goste de ir ao psiquiatra, quem goste de comprar armas e nunca atirar, quem goste de camareiras azuis andando de patins de borracha cósmica, de cidades empoeiradas no rasto do Inferno, de dar a bunda pro melhor amigo, de gravar fitas e ouvir sozinho sentado na cama, quem goste de acender incenso, quem faça orações de linguas cortadas, quem passeie por Okhlarroma em busca de ouro, quem devore volumes sobre aeromodelos da década de trinta, quem discuta com trocadores de ônibus sobre a microfísica do poder manifestada no ato de babar no travesseiro enquanto se dorme, há quem goste de posições sexuais vertiginosas, de falar gírias, de ter um vocabulário erudito, de comprar revistas sobre automóveis amanhã, quem tem dinheiro pra mandar te matar hoje à tarde, quem vá ao zoológico passear, quem tome sorvete de limão com cobertura, quem pula do décimo primeiro andar do prédio, há quem goste de não gostar de nada, de ver beleza no sol-pôr, da caminhar por horas intermináveis, de escrever em paredes, de comer azulejos e de andar de quatro até a loja de utensílios domésticos inutilizáveis

eu quero enforcar o Mundo pelo

Fiasco.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 7:09 am

I

Despencam vacilantes das vielas
Dos trens alucinados
Das janelas
Das casas

Despencam surdos das filas de supermercado
Das antenas
Dos penhascos
Das praias do mundo

Despencam trôpegos das estrelas
Das nuvens
Dos astros
Das memórias

Despencam agonizantes
Das palavras
Dos poemas
Das flores

Despencam bêbados coléricos
Das fúrias desesperadas
Dos dias nublados
Atravessados por ninguém

II

Despencam agudos solitários
Da metafísica
Dos parques
Das cidades

Despencam desfigurados anônimos
Dos armários
Dos quartos
Dos sentimentos

Despencam mudos dos cálculos
Do pensamento
Das cabeças
Estouradas

Despencam idiotas do infinito
Da solidão
Dos impossíveis
Indeterminados

Despencam mortificados das cores
Das possibilidades
Do absurdo
Inevitável

Agosto 23, 2008

SOMOS TODOS GRU(ES)PELHOS.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 5:42 am

Óleo sobre a cabeleira envergada; somos falanges amorfas decretando uma nova Velha Hora. No silêncio, homens ungidos repartidos em amontoados. Pausa. Inversão. Do lado de fora, voamos em reventos e anéis cinzentos. Na tua madrugosa, Helena passeia sozinha, seus pés mal podem tocar o chão, suas mãos nos bolsos furam os Céus e, lá, observamos estranhados. Invulgar relato foi revelado pelo matemático e químico australiano Bill Chalker, que se dedica ao estudo de fenómenos OVNI. Segundo ele, o libanês Peter Khoury descreveu como “profundamente perturbadora” a experiência que teve com duas mulheres alegadamente alienígenas.Dentro do lugar de escândalo, objetos movimentam-se energicamente. No asfalto molhado, Helena lança seus passos áridos: uma nova rua a cada esquina, uma nova esquina a cada passo. O caso de Peter Khoury tem alguma semelhanca com o de Villas Boas, que afirmou ter sido forçado a manter relações sexuais com uma agressiva mulher humanóide a bordo de um UFO pousado próximo à sua casa. Helena sabe bem o que fazer nos momentos em que o céu parece desabar sobre cobertores de concreto, Helena sabe bem que deve aprender a fumar para lutar contra o vício. Respiração, trago, retorno. Khoury disse a Chalker que este encontro de 23 de julho 1992 começou às 07h30 quando ele dormia. Entretanto, acordou assustado com a presença de duas humanóides nuas. Na lanchonete, Helena deixa suas marcas nas cadeiras. Na lanchonete, as cadeiras deixam suas marcas em Helena.

Daqui de fora, tudo parece perecer.

Encostado na esquina, Wander enternece em Helena. Wander aproxima-se de Helena com seu andar macio. “Elas pareciam humanas em todos os aspectos, tinham corpos adultos e bem proporcionais. Uma delas tinha aparência asiática, com olhos escuros, cabelo preto e liso caído na altura dos ombros. A outra parecia talvez como uma escandinava, com olhos de cor clara (meio azulados) e cabelo loiro e comprido, que ia até o meio das costas” . Wander começa a amanhecer Helena. Animais invisíveis sobrevoavam a cidade quente e, molhados, cobriam as pequenas partes por onde passavam. “Eu nunca tinha visto um cabelo como aquele, era meio encaracolado como o de Farrah Fawcett, mas por outro lado… Parecia de certo modo muito exótico”. Em cada esquina, uma ventania diferente. As casas não podem deter a fúria que se avança em todas as direções.

Um terreno baldio de destroços.

No caminho das compras, Helena pensa em jogar o que resta do topo do Inverno. Lança um olhar cortante contra a Cidade, ergue seus braços em telepática sintonia e, como quem nada mais teme, destrói o mundo. Ele disse ainda perceber logo que não eram humanas, pois tinham faces estranhas, com ossos faciais muito altos e olhos duas ou três vezes maiores que o tamanho normal. Está errado, Helena faz voar o sorriso fraternal e acostuma-se com a espera do cão que nunca vem. Nunca vindo, o cão toma emprestado o carro de Ninguém. Dentro, Helena pode caçoar do caramujo medroso que a olhava amavelmente. A loira, porém, foi a que mais lhe chamou atenção, pois tinha rosto muito comprido. “Eu nunca tinha visto um ser humano como aquele” , afirma. “Dentro da casca há a casta”, pensou Helena. Helena parecia sobrevoar a Cidade e, molhada, cobrir as pequenas partes por onde passava. Alguma coisa assim; nenhuma coisa assim. Coisas. A loira, que estava sentada de joelhos sobre a cama, parecia ser quem dava as ordens” , e Khoury percebeu que ela se comunicava telepaticamente com a outra mulher. Helena, que nunca havia proferido palavra, avança em direção à mesa de vidro, insinuando-se por sobre a mesa. Helena e os cacos repousam pelo chão. Esta, por sua vez, “estava sentada com as pernas parcialmente dobradas embaixo dela. Havia algo duro, quase ausente, na expressão destas mulheres” , contou ele. Helena e seus cacos repousam pelo chão. A mesma mulher o pegou pela nuca e ainda que a tentasse evitar, ela o puxava contra o peito dela. Khoury tentou se desvencilhar, mas “ela era muito forte” , disse ele a Chalker. Certa noite, não há mais o que fazer a não ser jogar uma pedra contra o poste.

- Você tem um minuto, pra falar sobre qualquer coisa?

- Você tem um sapato que sabe nadar?

Matilha.

Agosto 21, 2008

Conflito.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 9:39 am

- Olá, eu queria lhe dizer certas coisas, mas não acho que seja inteligente dizê-las. Mesmo assim, vou tentar dizer o que quero, mas não leve muito à sério, está bem? Não é importante, quero dizer. Espero que entenda.

- Me desculpe, eu não estava ouvindo. O que foi que disse?

- Ah, o céu. Você reparou no céu? Está estranho, acho que vai chover.

Agosto 20, 2008

Estrofe.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 9:51 am

Um largo inseto a rasgar o silêncio vertiginoso do meu peito

Febre redentora, mil cristos em meu crânio

Ardem sacros ao deserto do pensamento

Estoura a cabeça de cerâmica

Virgem Maria e Airton Senna

Agosto 8, 2008

Enforcamento de sapatos, parágrafo I.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 5:01 am

Era necessário colocar uma pausa na inspiração que me impacientava. A febre me consumia em seu leito de chamas vertiginosas e era um autômato quem tecia os últimos versos sobre grinaldas molhadas pela chuva de um barulho atormentador. Depois de arrancar e atirar as unhas aos céus, banhei-me do cálice em que a serpente se afogava. Dormi no leito de esqueletos decompostos e, tal qual o mais gracioso dos dançarinos, contorci no chão. Lá encontrei os retratos que, por eras, foram queimados pela suprema Vontade de declinar a fronte no colchão de fugas de um hospício congelado. Assim foi durante vinte séculos e, vendo as mãos calejadas, doloridas, encontro-me volvendo à matriz de delírios sobre a qual, em um coito titã, nasci em sonhos. Foram vinte séculos de tráfego tortuoso, e as sombras ainda me corrompem um braço; envolvo-o em gases, enfaixo-o cuidadosamente, soco-o na parede, ateio fogo em suas superfícies, congelo-o e, ainda assim, sinto que a Doença ainda não foi-se embora. Penso que as rugas que se desmaiavam, mas não morrem. Sua morte triunfal levará mais vinte séculos. Aguardarei pacientemente, descarregado seus fluxos de tempestades suicidas sobre as folhas: minha poesia, surgindo da febre tufônica que afoga um de meus braços, será a mais bela de todas. Amontoar-se-á em incontáveis volumes, substanciais e esta é a forma que encontrei para não deixar que se apodere dos outros membros por mais vinte séculos, se tal coisa ocorresse, eu precisaria de mais vinte séculos para jogá-la uma vez mais, a um membro somente ou, talvez, escarrá-la o caderno sobre o qual hora me debruço. Era necessário fechar uma questão, bater nela com uma pedra, dessa forma, a deixaria em aberto. Não há um motivo pelo qual sombreia-se o objeto, há um tufão generalizado que margeia-se em todos o piano, o vinho e a poética. Banhei-me em todos os rios. No lago de palavras e símbolos, encontrei o complemento para o verso que deixei para compor daqui a vinte séculos, ele será esquecido e lembrado, andará sobre o fio da navalha e arrancará dos livros, palavras semelhantes àquelas que escrevi há vinte séculos. Em todas as civilizações que visitei, deparei-me com o rastro de minha alma assombrosa, sobre seu coito, o sexo de gigantescas eras. Se seus olhos se fechassem e se amputasse o braço canceroso, não mais eu poderia descarregar sobre os olhos de quem o espírito é margeado pela beleza de corpos esbeltos o seguinte verso: “tenho uma vida morta sobre a pedra onde dormem os sonhadores”, e meus versos seriam de beleza inigualável, porém o peso de minhas palavras não eclodiria sobre o crânio doentio onde moram as virtudes nauseantes que navegam por rios de águas entorpecentes. Lá, encontro anfíbios: inimigos do sol fazem pactos com a noite. Era necessário colocar uma pedra sobre meu braço, uma sentença de morte seria assinada, um assassinato ocorreria; chamariam-no de suicídio. As rédeas que me sombreiam os olhos, mornos, não são capazes de fazer morrer a musica de cada falso espermicida que me rodeava as vestes, insanas. Teço planos junto ao nada, meu consolo fatal! Na última hora, germinando entre sombras, lançarei o canto final! Seu soar será tão intenso quanto as águas de um dia de chuva intenso, seu crepuscular assombrará nossos membros cansados, irados, mortos – nosso sexo agonizante, elevar-se-á sobre nossas carcaças friorentas: o repúdio, a destruição de seus atos trará a nossa Verdade: simples, morta, mutável. Uma pausa era necessária para o nascimento de um movimento tempestuosamente interminável.

Num momento de profunda solidão, o náufrago das superfícies pode perceber o mal que sofre. Preso nas teias dos braços de uma paixão efêmera e, acima de tudo obrigado a viver entre navegantes – enquanto seu desejo é naufragar junto com o barco da Respiração –, descarrega sobre o espelho todas as balas da arma que possui por detrás dos olhos. Incapaz de ter sua carcaça afagada por uma bondosa criatura, se arrasta em meio à fumaça que lhe cega os olhos aborrecidos. Tem, contudo, um sopro de não-vida a lhe guiar os passos nas arestas de um sossego inaudito; sussurra à sombra morta que lhe espreita na primeira quina de silêncio que lhe aparece pelas costas. Há um tumor por entre as náuseas de sua paixão ensandecida pela vida, pela morte, pela sobrancelha acariciada pelo dedo menor. O náufrago atordoado pelos ares que lhe cerceiam escreve uma carta a quem lhe concedera a infâmia que é viver nela, timidamente, agradece por esta ter-lhe dado membros, mãos sobretudo, e felicita-se por poder discernir uma arma de um sofá molhado.

É mentira.

Agosto 6, 2008

Brincando de terremoto.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 8:00 am

Sonhos que se avizinham à noite absurda de silêncio e calma, miríades de gordos insetos a descreverem elipses ao redor das lâmpadas da cidade. Instante em suspenso e então a queda. De que é feita a fúria? De que são feitos os vórtices enlouquecidos que pairam sobre os abismos do meu sangue? Cão faminto, lúcido, imundo de salmos de morte, quieto, torto, manco, desgraçado, atiro-me à flor com violência, rasgo-lhe as pétalas. Disseco o cadáver de um porco que flutua às margens do Ganges, sou Deus, engulo os crucificados. Com meus dedos trêmulos, glaciais, reviro as tripas dos homens acesos; das putas endomingadas faço canções de amor, cavo-lhes as vulvas santas, engulo seus sonhos e suas químicas, vocifero uma ária contra o silêncio – o tom é pálido, impossível, agudo; navalha a romper nuvens. Mil sóis atravessados, mil loucas luas, mil vermes, mil monstros. Não haverá mais paz. De minhas mãos, nenhum verso. Então serei como a eletricidade do ar que pressente a tempestade. E não haverá mais em mim o balanço dos orgãos ao anoitecer. Devoro o tempo.

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