…há, nesse mundo de areia, quem goste de macarrão, quem goste de literatura folhetinesca, quem goste de cinema avant-garde, de espionagem italiana, quem goste de sucata envernizada, de museus, de obras de arte, de filosofia Antiga, arte abstrata, paredes azuis, brancas, silêncio, valsa poética nas quartas, entonações semilíricas, equações de sétimo grau, sete pés de terra, estações rodoviárias pintadas de amarelo e laranja, água quente de chuveiro pelas manhãs, amores intensos, festivais de teatro gangster, chapéis-de-coco, água limpa pra lavar as mãos depois do almoço, carne cozida na esquina do açougue que já fechou, lembranças da infância, membranas cortadas com ferro enferrujado num dia ensolarado, asma, bronquite, esportes olímpicos durante as férias, cerveja gelada, fio-dental às quatorze horas e dezessete minutos, há quem goste de flores, de literatura clássica, de colagens transgressoras, de roupas de palhaço, de andar pela cidade durante a madrugada, bebida cara, cigarros de filtro vermelho, de cães áridos procurando pelo Sinal, de semiologia literária ao molho pardo, sinalização, policiais vestidos de amarelo andando na praia deserta, pirulitos de dentistas clautrofóbicos, há quem goste de voar de avião com almofadas vermelhas, poesia prática em dias chuvosos, cantos de pássaros pelas manhãs de setembro, valsa amorosa nas terças de maio, manifestações de operários esquálidos, frio de inverno, catedrais colossais que parecem respirar ofegantes, religiões orientais, cotonete depois do banho, caixas de som amplificadas, idiotas com cara de espertos definhando por detrás de um monitor radioativo, transmissões radiofônicas de Antonin, óperas obsoletas da minha mãe morrendo, retórica espacial universitária, leituras de blogs taquicardíacos semitonados e ré-sustenido por dois deficientes físicos que ditam seus delírios para secretárias nuas sem sombrancelhas digitarem em rítmo fleumático, há quem goste de ir ao psiquiatra, quem goste de comprar armas e nunca atirar, quem goste de camareiras azuis andando de patins de borracha cósmica, de cidades empoeiradas no rasto do Inferno, de dar a bunda pro melhor amigo, de gravar fitas e ouvir sozinho sentado na cama, quem goste de acender incenso, quem faça orações de linguas cortadas, quem passeie por Okhlarroma em busca de ouro, quem devore volumes sobre aeromodelos da década de trinta, quem discuta com trocadores de ônibus sobre a microfísica do poder manifestada no ato de babar no travesseiro enquanto se dorme, há quem goste de posições sexuais vertiginosas, de falar gírias, de ter um vocabulário erudito, de comprar revistas sobre automóveis amanhã, quem tem dinheiro pra mandar te matar hoje à tarde, quem vá ao zoológico passear, quem tome sorvete de limão com cobertura, quem pula do décimo primeiro andar do prédio, há quem goste de não gostar de nada, de ver beleza no sol-pôr, da caminhar por horas intermináveis, de escrever em paredes, de comer azulejos e de andar de quatro até a loja de utensílios domésticos inutilizáveis
eu quero enforcar o Mundo pelo