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Junho 26, 2008

El Pato Patafísico

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 11:49 pm
 
…de que deixem as coisas às claras e que não haja mais nenhum obstáculo entre o meu mundo e o mundo daquela pessoa e o mundo daquela outra pessoa que não conhece qualquer outra pessoa que possa impedir que sejamos todos felizes por muito tempo uma rolha de tempo nos nossos ouvidos alarmados e que assim possamos todos descansar afinal estamos todos muito cansados eu sei que você concorda comigo não precisa menear a cabeça e não precisa escrever no seu diário que eu sou um gênio agora para passar àquela estória mais feliz em que somos uma pessoa só não existe isso de pessoa nessa estória o que existem são dimensões que não são dimensões que não são coisa alguma e só existe uma palavra e será com ela que de agora em diante nos comunicaremos e seríamos mesmo muito felizes e não teríamos fome e não beberíamos água você me entende seria tudo tão bonito tão verdadeiro tão irreal tão estúpido triste grotesco que não sairíamos mais de lá e nos comunicaríamos apenas através de uma só palavra que é uma palavra bem besta confesso mas é uma palavra que nos une que nos sela que nos alegra imensamente a ponto de batermos palmas e seríamos felizes e jamais nos sentaríamos à beira do riacho pois não existem riachos nesse lugar você sabe só existe aquela palavra que é tão bonita tão sonora tão macia tão suave e imensamente terrível e essa palavra seria essa palavra que não é nenhuma palavra dessas que a gente conhece e fica repetindo o tempo todo apesar de que ficaríamos repetindo essa palavra por muito tempo mesmo que o tempo lá não exista a gente sabe disso mas essa palavra existe ah existe e é com ela que eu montarei em um cavalo tão bonito que não é cavalo que não é bonito que não existe e viajarei para um lugar muito interessante onde fazem casas que não são casas com tetos de damascos e dinamites que não são dinamites não são damascos e não ficam em lugar nenhum pois essa palavra é infinita e tem mais ou menos trinta e seis metros e tem uma cor muito bonita parece que foi pintada por um pintor muito bonito com uma tinta muito bonita em um ateliê muito bonito em que se encerra a vida muito bonita desse pintor mas a palavra não tem cor e eu não entendo mais o que ela significa meu amor não me deixe só eu estou muito sozinho te amo para todo o sempre era uma vez um reino encantado mais vale um pássaro na mão do que dois voando você sabe eu não quero nunca mais que você saia de perto de mim e seremos muito felizes e você será bonita minha palavra de estimação com um lacinho cor de nada amarrado no seu pé sem laços sem pé sem nada eu não quero mais te perder não quero mais teto nem mais chão nem mais nada que me faça lembrar daquele dia em que um dia foi só um dia com muitas palavras diferentes que me fizeram ficar com uma dor de cabeça muito bonita tenho esperança de que sejam todos muito mais bonitos porque coisas bonitas são mesmo muito bonitas e tenho esperança que ninguém seja nesse lugar que nunca será meu mas será meu um dia e também tenho esperança de que deixem as coisas às claras e que não haja mais nenhum obstáculo entre o meu mundo e o mundo daquela pessoa e o mundo daquela outra pessoa que não conhece qualquer outra pessoa que possa impedir que sejamos todos felizes sem touros bonitos sem borboletas de terremotos estranhos ao anoitecer no lusco-fusco da caminhonete daquele seu primo que morreu em junho de mil novecentos e cinqüenta e seis e que agora está aqui do nosso lado nessa barriga de pássaro que voa em círculos muito bonitos tão bonitos e perfeitos que eu não quero mais que seja assim mas será por quanto tempo eu quiser por muito tempo sem que a minha palavrinha mágica redentora apocalíptica de morango seja proferida por esse montão de idiotas que ficam por aí dizendo que eu e você somos um casal estranho e que os cavalos da sua mamãe são mal pintados num ateliê muito bonito em que se encerra a vida muito bonita nesse lacinho muito bonito amarrado nesse seu pé que por enquanto é um pé muito bonito e que existe mas não por muito tempo mesmo que o tempo não seja mesmo aquilo que o padre disse na missa do domingo passado ah mas que chato aquele padre você não acha ele tem um bigode sujo meu amor eu não gosto dele e sei que todos aqueles que ali estão sentados e que estiveram sentados por muitos séculos e por muitos séculos ainda estarão sentados são todos muito bobos você não acha meu amor não há nada de bonito naquele bigode e naquelas palavras todas muito mal faladas eu acho que ele tem uma verruga na bochecha não dá pra ver da fileira de trás mas acho que é verdade eu sinto que ele tem uma verruga muito feia e muito grande na bochecha e acho que ele tem cheiro de carne apodrecendo não sei por quem mas isso eu vou deixar pra outra hora pois agora o que eu quero mesmo é dormir um pouquinho você sabe eu estive muito cansado durante todo esse tempo mas eu aceito que você segure a minha mão e que inclusive faça alguma carícias em algumas partes do meu corpo até que eu consiga dormir e sonhar com a nossa palavra que de tão bonita está tão distante mas sei que a hora de sua explosão virá e com ela uma noite muito escura dentro de um dia muito azul e muito bonito que não será feio como esse meu sapato que você insiste em dizer que não gosta e que tem cheiro de cachorro molhado ou de cachorro morto eu não me lembro ao certo quais são as palavras que você usa quando se refere ao meu sapato mas você sabe que sempre acaba me deixando muito triste então fique quietinha e segure a minha mão ou a minha barriga ou a parte detrás dos meus pés que estão inchando inchando inchando e acho mesmo que qualquer hora dessas eles vão explodir ah como eu estou cansado então finja que você acredita que um dia eu serei o seu louco predileto o seu lunático de brinquedo sua bússola de vento forte batendo no meu rosto estou com frio não consigo me levantar você pode fechar um pouquinho a janela para que eu possa dormir um pouquinho está tão frio meu amorzinho que eu acho que meus pés voltaram ao normal e agora sinto que estão diminuindo diminuindo diminuindo e acho que vão sumir e meu coração não sai do meu ouvido mas acho que se você segurar minhas mãos com as suas mãos nós teríamos um momento muito interessante e talvez tivéssemos um filho que não chorasse e seríamos uma família perfeita que jamais existiu e nunca existirá exceto por uma luzinha que brilhará durante um pequeno instante e que nunca existiu e que não vai existir mas a gente acaba dando um jeito e acaba sendo feliz eu te amo meu amor segure minhas mãos mas não aperte muito pois posso acabar chorando e eu não saberia dizer se por dor por emoção ou por calor ou por uma coisa que ainda não tem nome e vai ganhar um nome bem bonito quando eu estiver morto e nunca mais puder pronunciá-lo mas isso eu deixo pra depois pois agora estou querendo um sonho lindo ao seu lado meu amorzinho minha queridinha meu inferninho de menininha estrábica que nunca me amou mas que me amará se um dia houver aquela nossa palavra que diz um monte de coisas sem dizer nada e que nunca deixará de existir mesmo que nunca tenha existido ou que nunca tenha sido escrita no papel do doce que um dia eu te darei mas deixo isso pra depois pois não quero que você se irrite e quero que seja mesmo muito amável e muito carinhosa e tão bonita tão bonita tão perfeita tão calma e leve e bonita com uma beleza que um dia eu direi ao pé do seu ouvido que foi eu que inventei pois sou o maior inventor que já existiu o melhor inventor e o melhor mágico e o homem da sua vida meu amor eu te amo amorzinho de menina fique aqui comigo só não me faça chorar pois quando eu choro sei que você se irrita e me bate com aquele seu pedaço de madeira que você guarda atrás da porta do seu quarto e que não tem pregos enferrujados mas que me machuca e você fica feliz por alguns instantes e depois fica mais feliz e depois fica mais feliz e vai ficando feliz até o fim do mundo quero dizer do mundo que a gente conhece pois quando estivermos no meu mundo eu te baterei com um pedaço de ferro mas você não irá chorar e ficará comigo pois é o amor da minha vida que um dia deixará de ser essa seqüência de palavras que não significam nada e será tão bonita tão bonita tão clara tão viva tão pequena e nela me comunicarei com você através de uma palavra só uma palavra e só essa palavra e talvez algumas pancadas mas isso eu vou deixar pra depois pois o que eu quero agora é que você me dê um beijinho em cada uma de minhas mãozinhas de monstro que não sabe dar três passos sem que caia no chão e grite por socorro mas você sabe que isso nunca mais se repetirá e que eu serei um menininho muito bonito e você viverá em meu coração e o nosso filho viverá em meu pâncreas mas nada disso existirá e nós ficaremos gritando eu ficarei gritando ninguém gritará porcaria nenhuma mas ficaremos gritando eu ficarei gritando repetindo aos berros a nossa palavra e seremos todos salvos por aquela palavra que nos une que nos sela que nos alegra imensamente tão bonita tão sonora tão macia tão suave e imensamente terrível e essa palavra seria essa palavra que não é nenhuma palavra mas que não é nenhuma palavra que não é nenhuma palavra que será uma palavra bonita você sabe ah eu sei que você sabe não precisa fazer essa careta e não precisa dizer que eu sou o seu amor o seu único amor verdadeiro no qual você deposita toda a sua fé todo o seu carinho e que de vez em quando recebe alguns pontapés e no qual você também bate com aquele pedaço de madeira que eu acho muito bonito mas só no mundo da minha palavra que não tem mundo que não tem palavra e no qual você é só uma linda menininha que não existirá mas que será tão bonita tão bonita tão minha e tão minha e tão perfeita mas isso eu deixo pra depois não quero que você se anime pois você não está merecendo meu amorzinho você soltou minhas mãos e agora elas já não existem mais e os meus pés já foram embora e estou começando a sentir formigas passeando por minhas pernas e acho que você fez de propósito mas eu não vou te irritar com essas bobagens pois você morará comigo onde minha palavra nossa palavra infinita aquela palavra da qual estava dizendo você se lembra amor você se lembra do que eu estava dizendo meu amorzinho não fique assim eu ainda te amo mas não tanto como no dia em que te amei naquela palavra e não nessas palavras tão azedas que jamais existirão no mundo em que te amarei naquela palavra e não nessas palavras tão azedas que jamais existirão e jamais existiram mas isso eu vou deixar pra depois pois agora sinto que você não quer mais ouvir o que eu tenho para lhe dizer então espero que você durma bem enquanto isso eu vou pensar em uma coisa muito interessante é uma surpresa que eu tenho e que lembra a sensação de um gosto estranho que me apareceu na boca no ano passado enquanto eu carregava os pacotes para a casa do seu irmão que já morreu e que tinha um chapéu que tinha uma cor muito estranha e cheiro de baunilha mas vamos com calma pois estou vendo que você não consegue dormir se eu tivesse minhas mãozinhas eu as usaria para segurar seus bracinhos e também usaria os meus pés para esquentar os seus mas agora eles já devem estar bem longe e talvez já estejam mesmo no mundo da minha palavra que não existe mas você sabe que isso não importa muito pois agora já não tenho um tronco e meus braços estão morrendo morrendo morrendo e acho que a minha cabeça não vai ficar ao seu lado por muito tempo lembra de quando fomos ao farol e choveu durante a tarde inteira eu sei que você se lembra e sei que isso nunca mais vai existir se já existiu eu não me lembro mais mas a minha cabeça já está querendo desaparecer preste atenção em como ela treme eu te amo feche a janela meu amor minha namoradinha o vento lá fora está ventando de um jeito tão esquisito você não acha olhe para mim olhe para mim eu ainda tenho uma cabeça e um pouquinho de pescoço estou sumindo mas não como naquele dia em que você me esqueceu atrás da sua casa deitado no jardim ouvindo os pássaros irritantes piarem flores que não existirão nunca mais meus olhos estão doendo você não quer enxugá-los meu amor você não quer um pedacinho do meu nariz um pedacinho da minha língua um pouco de boca e de voz e de sonhos que eu tive na semana passada ah que sonhos bonitos eu tive na semana passada mas deixo isso pra depois você ainda está me ouvindo responda você ainda está me ouvindo meu amorzinho está bem eu também não estou me ouvindo acho que minhas orelhas se foram também mas isso não importa pois eu te amo e me casarei com você amanhã se você ainda estiver na minha palavra no meu martelo na minha palavra ah estou ficando com medo você pode me bater com seu pedaço de madeira se quiser não sei o que lhe dizer pois existem certas coisas que não podem ser ditas por cartas por sinais ou pela boca ou pelos olhos ou por poemas em um livro muito bonito com uma capa muito bonita mesmo que seja o maior e mais bonito livro do mundo não funcionaria não seria possível pois ninguém leria um livro tão bonito assim e você sabe disso e você concorda e acha que eu acabo de dizer algo realmente extraordinário mas você não entendeu e continua achando que sou um gênio mas você não existe mais e agora eu estou sozinho e vou contar uma estória muito bonita para o escuro e você não poderá me alcançar (…)

Junho 13, 2008

História pra boi dormir.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 4:01 am

          Silêncio extraordinário. Resta pouco a ser dito. Na manhã em que pela primeira vez vi Beatriz atravessar a esquina mais escura da cidade, algo se quebrou dentro de minhas histórias. A mais leve das imagens a vagar pelas vielas mais imundas de minhas paragens, os passos vivos e calmos, como que versando sobre o impossível.
          Na manhã em que pela primeira vez vi Beatriz passear sobre meus escombros, sob meu céu anuviado de fracassos, perdi minhas vogais, minha capacidade de inventar-me mortes. Desde então nunca mais menti. E com os instantes vieram-me todas aquelas criaturas por mim um dia mal contadas, multidão de desconjuntados a se despedirem à distância. Fiquei só. A errar longe, sofri calado as virações inquietas de minhas marés mudas, a violência cega a dilacerar o drama e o riso, as vertigens do abandono. Assisti impassível a queda surda de meus castelos de cartas.
          Jamais vi novamente aquela que contaminara com luz meus vácuos mais íntimos, mais sensíveis. Beatriz levou consigo minhas sombras fundamentais e nunca mais gracejou passos pelas bandas brancas de cá.
          Muito tempo se passou até que todo o espanto se obliterasse ao silêncio extraordinário do presente instante. Hoje sinto-me terrivelmente vivo, imóvel, ao centro de tudo aquilo que um dia menti e que hoje já não é mais. Manhã infinita, guardada. E devo dizer que por vezes ainda me pego imaginando uma Beatriz a iluminar uma ou duas calçadas em algum ponto morto do universo. Já não deve ser a mesma moça que um dia vi cruzar meu crânio. Mas eu a vejo, a sinto distante. A mão branquíssima, talvez. O pulso transparente. Os dedos magros e compridos com seus nós avermelhados, suas saliências inflamadas. Os joelhos frágeis, os pés escondidos. Uma quase voz, olhos esquisitos. O sorriso de doente terminal. Um desbotado vestido amarelo que um dia desmontou meu reino. Ou talvez tenha se mantido tão bonita, tão bonita, o vestido a sacolejar. Beatriz infinita, a dançar luzes, ainda penso em como devastou meu espírito, configurando essa luz desconcertante em meu peito. Não sei por onde paira hoje sua imagem. E fico aqui, desperto, iluminado. Distante dos abismos insondáveis dos seus passos.

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