Renato Ciacci e Tiago Barreto.

Maio 12, 2008

Sorriso des(percebido)dentado.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 8:14 am

Na torpe alimentação da serpente amarela, uma cereja azul aparece, rutilante, entre vísceras de uma cadela de tamanco. No ar do salão verde, espíritos verdes clamavam luz em estilhaços escuros que estavam expostos no lado oposto ao escudo de água que os cercavam. Figuras enegrecidas pelo amanhecer… Espíritos elevados rejeitavam a elegância, nos tronos clamada, lambida, travestida por hienas ocas empaladas de ar e palavras repetitivas, a zombar dos corpos nus. A serpente e suas pernas quebradas, as ramificações a peregrinas pelas dunas do ócio e do torpor. Inertes pela sombra, sobravam pelos cantos silenciosos. Figuras enegrecidas pelo amanhecer… Espíritos elevados rejeitavam a elegância, colocada nos pés, amarrada por tiras coloridas, folheada a ouro e banhada a sangue maternal. No retrato da água, uma goteira a, aos poucos, secar. Lá, multidões de hienas amontoavam a colidir-se em busca do bálsamo que lhes tatuavam nos olhos. Acariciavam folhas mortas e cantarolavam vida, eram filhas de filhas de filhas de pilhas de colunas dobradas, pela lama a parir ninhadas ocas, a gargalhar, histéricas, pelo deserto. A carniça que lhes atraía, a fedentina que desfalecia os que tinham os olhos em sangue e os cabelos em barro branco. Vestiam o que melhor aprouvia, em clara displicência inconsciente à todo aquele ritual de peças apertadas e risos cadavéricos. Figuras enegrecidas pelo amanhecer… Espíritos elevados rejeitavam a elegância da chuva de almas secas suspendidas em gravetos, espetos mal definidos, pegos no saco de esterco, farinha e cocaína. A serpente interrompeu sua alimentação e, colocando os pés sobre a mesa onde anjos eram circuncidados de membros eretos. No ar do salão verde, espíritos vesgos clamavam luz em figuras descoloridas. Gemidos sexuais ensaiados frente a espelhos embaçados. Notas musicais espremidas contra a parede; com os pés esticados, a serpente viu que pisara sobre ovos, lamentou o dia em que passara e quis, uma vez mais, enfrentar o demônio que se aproximava. Nas escadarias de seu intestino, hienas ocas desfilavam, gargalhando histéricas, com fitas coloridas amarradas nos pés, mãos e pescoços. Deixavam partes de seu couro à mostra, uma vez que precisavam estar bonitas para não serem espetadas pelos anticorpos infernais que circulavam nos andares estomacais do demônio de vidro musgoso. Seus olhares, estremecidos pelo brilho do sol ofegante de corpos amontoados no pátio do salão, formavam uma fogueira fétida onde se atiravam bilhetes de amor. Figuras enegrecidas pelo amanhecer… Espíritos elevados rejeitavam a elegância de frascos de poeira que, espremidas pelas faces e peitos, deixavam as hienas com igual odor. As hienas se espremiam pelos corredores do estômago demoníaco, chafurdavam na goteira inerte onde pensavam encontrar seu bálsamo. Torpe quimera – era apenas um rastro de água morna, quatro gotas que se secavam, palidamente, pelo chão do salão verde. A serpente e sua ninhada solitária; sentiu a náusea dos deuses de arruda, empunhou adagas de asco e, em uma eterna fração de segundos, golpeou o demônio que, resoluto qual nuvem chuvosa, se aproximava. Ele mostrou a língua, em expressão de aguda dor, os germes de seu estômago (hienas minúsculas) tremeram durante sua queda ao abismo das sombras flutuantes. Tontas, a gargalhar, d’Os Elevados, experimentavam a danação de lançar o olhar para o oco, gargalharam de lamentação, gargalharam na confusão, gargalharam na morte, gargalharam na carência e na não saber fazer algo que não fosse gargalhar e se enforcar nos cordões da elegância – também sem motivos – . A noite cobria, com seu manto gelado, o sol e, naquele tempo, a masturbação de anjos, atirados ao lago dos sapos imundos, formava uma legião de demônios roedores-ratos. A serpente contemplou a tempestade que se iniciara e, numa descarga apocalíptica, emudeceu-se. Figuras amanhecidas pelo anoitecer…

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