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Abril 25, 2008

Anotações incendiadas.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 6:07 pm

“Olhando para o nada
Pensando na palavra
Que traduza a sensação”
Smack.

Na estação do infinito, o cancro e o manto envolvem meu estômago, em labirintos. Não tive medo de alcançar o ápice, assim como não tive medo de me encontrar com você. E o quê poderíamos chamar, talvez, de um novo dia? Novos dias… Amar até a próxima estação vazia, então contorcer até o próximo mês. Daqui de cima, tudo parece pequeno. E daqui de cima eu posso me atirar e me espatifar entre maquinarias, perfumes, vaginas de ciganas sujas e cigarras secas presas entre gravetos. Pisadas por transeuntes, são o pó. O motorista que segue pela pista expressa da Avenida Marginal Tietê, em direção a Rodovia Ayrton Senna, na zona leste de São Paulo, próxima a Ponte das Bandeiras, pode observar um acidente ocorrido por volta das 17h40 desta tarde de domingo. No entanto não há pontos de retenção. Hormônios na escrita e fascinação fajuta por gírias e sonhos molhados. Daqui de baixo, posso ver o percurso que os saltadores percorrem e me fundir à massa informe e salgada que formamos. Doce taquicardia! Um cão, cansado, cambaleia no firmamento. Na estação do infinito, o ínfimo… calafrios e cadarços espatifados, esparsos pelo espaço. Hormônios e o vício do palavrório cretino de uma carta apaixonada amassada. Aqui, longe do céu estrelado, há uma nuvem terrífica e mil enforcados dependurados. Seus sapatos, depois de anos, caem ao chão, sobre nossos corpos fundidos. O eco é ouvido enquanto nos fazemos surdos, desentendidos. O órgão que controla o tráfego áereo na Suíça, o Skyguide, anunciou que reduziu em 20% o trânsito de aviões no espaço aéreo do país. O anúncio é feito em meio ao debate iniciado com o acidente da última segunda-feira, no qual dois aviões – uma aeronave de passageiros e uma de carga – colidiram no ar, deixando 71 pessoas mortas. Segundo a Skyguide a medida vai aliviar seus controladores de tráfego aéreo, que estariam trabalhando sob extremo estresse desde o acidente. A redução no tráfego de aviões no espaço aéreo suíço deve causar atrasos em dias muito movimentados, como os fins-de-semana de julho e agosto, meses de pico no verão europeu. Próximo ao porto, o andarilho cai pra não mais levantar. Soergue o olhar e maldiz o Todo. Piedade!, clama secretamente aos cavalos que o pisoteiam com fúria cega. Todos em busca do Sol, o imenso e imerso Farol, todos vestidos, mancos, sofredores. Afundados nas guelras confusos da busca pelo tempo perdido. Frieiras expostas e casais desposados. Cópulas secas e salas vazias. Humanos cambaleiam na estação do infinito, encontrando o ínfimo. Aqui, todos parecem exercer uma espécie de cumplicidade típica de irmãos vingativos: odeiam-se, convivem-se, confundem-se, confinam-se e respiram num lugar sem ar. Parecem exercer uma cumplicidade dolorosa de irmãos-abelha que se abraçam e esquecem de chorar enquanto cortam-se em pedaços. Esquecem e se aquecem.

“Os sentimentos são desculpas
E as culpas são inocentes”
Ocaso.

Cacos confundem-se à cor da pele. Segundo a imprensa suíça, as investigações sobre a colisão da semana passada indicam que o técnico responsável por controlar o tráfego na momento do acidente estava sobrecarregado de funções. Investindo na queda, saltadores abandonam os postos para encontrar o Alvorecer. Lá, encontro minhas paixões adormecidas. Suave é o afagar das harpias! Ele estava sozinho na torre de controle porque seu colega estava em seu intervalo de trabalho. Anos de cumplicidade e noites a fio. O acidente ocorreu no km 57, na região de Atibaia, interior de São Paulo, e envolveu um caminhão, um ônibus e três carros. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, embora a pista tenha sido liberada desde as 13h30, reflexos do acidente ainda eram vistos no trânsito no final desta tarde. Às 21h25 era registrado apenas tráfego intenso na região, mas sem pontos de lentidão. Envelhecemos com livros e diários borrados na cabeceira. Damos cotoveladas um no outro enquanto dormíamos e tomávamos cafés amargos enquanto disfarçávamos os olhares dispendiosos. Eu queria a sinceridade muda de quem já não tem muito o que fazer e, depois de tudo, procuraria um momento oportuno para me enforcar ou uma cama com cheiro de sexo fresco. Suave é a vida na cidade-entulho! A imprensa do país especula que o acúmulo de tarefas que ele tinha de executar nos cinco minutos que precederam a colisão possam ter impedido que ele avisasse o piloto do avião russo para mudar sua rota a fim de evitar a choque com a aeronave de carga. Nossas anotações secretas eram cheias de punhais e amargores, enquanto nos olhávamos com ternura! Suave é a piscina cheia de arrepios! Esperávamos Godot em segredo… O dia chegará!, pensávamos sem inocência, sem sensatez e sem vontade. Os investigadores não divulgaram informações sobre o depoimento do técnico, que está em estado de choque desde o acidente. No entanto, as investigações apontam para várias falhas técnicas no equipamento do Skyguide, incluindo um defeito no sistema de alarme especialmente desenvolvido para evitar colisões. Além de defeituoso, o mecanismo estava desligado. Aqui, no lodo final, observamos o alvorecer e a beleza de carmelitas translúcidas. Andávamos até o amontoado de escombros e, sem olhar, dávamos, todos, de ombros. Acordados para enxergar o sono alheio, homens sem rostos perambulavam pela enseada…

Abril 17, 2008

Cadeira de balanço.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 4:49 am

A em S, NEG(NEG(A)) = A

< S*, =>¹ > (A.3)

 

A¹,A²,…,An, B e membros de S.

A.1 => ¹ como implicação em S.

 

G-L modal em I.UR (Q – 1U)

 

< W > q-¹ (A.3)

 

(a) Se E é um filtro de condição em E(q), mas não em E(q*), então q* vale mais que q.

(b) Se E é uma condição ideal em E(q), mas não em E(q*), então q* vale menos que q.

 

(…)na lama eu me pergunto na lama quem está aí quantos são de quem são essas vozes mas o silêncio todo o silêncio pesa e me recordo recordação para nada do dia em que um dia nunca mais pensar nisso última vez eu não me deixarei mais sem ter tido a chance no dia em que abaixo da figueira sagrada das folhas da figueira o vento o céu e as cores dos meninos conto até sete oito conto quatorze trezentos vinte e nove e nove meus cálculos pois um número atrás um número em frente ao outro número dizendo eu não conheço o número anterior posterior nunca terem tido a chance de unirem-se na lama é uma pena na lama quem está quantos são que vozes são essas minha história não mais uma poesia um cálculo oito digo dez vezes oito para nunca mais o inferno a lama a merda o cheiro de lama na merda no inferno da minha recordação do dia em que as folhas da figueira caíram sobre os meninos coloridos e eu aqui mais nada mais ninguém sozinho no silêncio na lama da lama que na lama se encerra e nunca mais não nunca mais sim sim não nunca mais eu mim outro primeira pessoa singular terceira quem última pessoa na lama para nunca mais(…)

Francisco escreve. Cadeira de balanço. Gráficos. Traça infernos. As pessoas morrem em si mesmas. As pessoas morrem umas nas outras. Círculos. Dite, Malebolge. Franciscos. Corpulentos, pesados, vagarosos, como se feitos de chumbo. É isso. Descarga de palavreado. Fuja, calcule. Conte até seiscentos. Um, dois. Um, dois. Para a bunda a primeira tábua, para a tábua a primeira bunda. Tagarele, acenda a luz. Ancorado ao meio do céu, mire a imagem distante. Vire o rosto. Um tiro de pelúcia no tímpano direito. Gargalhe.

S em A, A²-A.3

(c) ?

Francisco escrevo. Há em mim essa gravidade lunar, silenciosa. Contemplo a palidez do verbo à janela de meu crânio. Mania de profundidade. E quieto, mudo, talvez apagado, acompanho o espetáculo desse que jamais encontrou amparo na frieza dos fatos, mas sim no fogo das dúvidas, na imensidão de suas incertezas. E é como se a dor só pudesse encontrar seu foco na distância.

 

 

e qual più pazienza avea negli atti
piangendo parea dicer: – Più non posso.

¹ Dante, Purgatório, X, 136-139: “E aquele que tinha o aspecto mais paciente parecia dizer, chorando: Não posso mais!”.

Abril 12, 2008

O Fantasma.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 4:21 am

            Mil ruas e um coração aos saltos. O ar escuro, as mãos rudes, invisíveis, a tatearem portas. Os caminhos desconjutados, banhados pelo clarão pálido das lâmpadas de querosene às janelas. O chapéu caído sobre o rosto, a aba a escurecer-lhe a boca. O mais terrível dos sonhos. Uma velha, uma moça, uma puta, uma mãe a atravessá-lo com o olhar cego que não vê, o olhar morto que não vê, o olhar indiferente que não é mais que flecha cravada em contraponto, visão perdida no espaço vago por detrás do corpo de chumbo do homem que sonha. Agora é o olhar cego que não vê, o olhar morto, indiferente e atroz que jamais viu. A mulher agora é esse olhar cravado no vazio por detrás da visão de um fantasma. O chapéu caído sobre o rosto, a aba a escurecer-lhe o coração aos saltos. Não chove. Mil ruas a se repetirem. Um instante em meu instante, um sopro em meu sopro, ele diz. Sua boca a mover-se. Nenhuma palavra.

Abril 5, 2008

Anotações de um inverno ensolarado.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 1:57 pm

I

A menina na calçada levou
Um tombo
Tombado
no meio da calçada

Rasgou o joelho
O queixo
E a buceta
Rasgou-se à sarjeta

A menina na calçada
Levou um tombo
Um tombo, porra
Um tombo, caralho

II

Um pássaro morto
Caiu no meu jardim
Ferido
Sorri

Vento venta ventando
Na puta
No cu da
Puta enferma, dolorida

É a vida, é a vida
Vão tomar no cu
Um pássaro ferido
Enrabando um urubu

Fim.

Abril 3, 2008

Nuncamaisnadavidaamanhã.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 7:39 am

Eu, meu cão e meu cajado sagrado. Se fôssemos mais… qualquer coisa dessas, fundaríamos um novo céu e uma nova terra. Um novo paraíso e um novo inferno. E criaríamos seres descerebrados que só fariam foder e gritar. E tudo seria em tom pastel. E depois de 100 anos condenaríamos todo o todo e todo o nada à não-existência-completa. E poderíamos, qualquer hora dessas, trocar nossos olhos por testículos e vice-versa. E tingiríamos os elementos com a mais profunda das escuridões para, logo após, escondermos navios com as palmas das mãos. E ejacularíamos nuvens e cavalos brilhosos. E sacudiríamos os campados ao anoitecer. Invertendo constelações, lançando fezes sobre a estepe.

Eu, meu cão e meu cajado. Fôssemos mais, seríamos tanto. E fundaríamos novo céu, nova terra. Criaríamos seres descerebrados que só fariam foder e gritar. E tudo seria em tom pastel. E depois de 100 anos condenaríamos todo o todo e todo o nada à não-existência-completa. E tingiríamos… A inovação trazida por Simão o Mago foi afirmar que o criador do mundo seria um Deus decaído, degradação do Pleroma, da instância superior. O Deus central do monoteísmo, o Jeová do judaísmo, é invertido e passa a ser uma espécie de demônio. Haveria, contudo, algum grão do verdadeiro Deus no ser humano, e o contato com o ente superior seria possível através da Gnose, entendida como conhecimento revelado, modo da experiência mística.

E eu, meu cão e meu cajado não faríamos nada além de tudo isso e de outras coisas mais. Escorregaríamos em lodos e, depois, estraçalhararíamo-nos como lobos. Eu, meu cão e meu cajado atravessaríamos oceanos de granito a nado. Nota-se que uma das principais características deste modo fugaz de vivenciar a sexualidade se constitui no privilegiamento do sentido da visão. A velocidade da mídia exige a velocidade do olhar… Inegavelmente, o olhar pode funcionar como uma forma de aproximação, de sedução e de magnetismo no jogo erótico, constituindo uma linguagem universal de atração; ou também de indiferença ou aversão entre as pessoas.

Órbitas.

E configurando estaticidades infinitas, revelaríamos planetas. Nós, amantes da noite, tragando as virações dos nossos mares. Obliterados, desvanecidos. Impotentes randômicos, des-nascidos das palavras. Sorridentes do nunca mais. O olhar representa um estado inicial de atração, mas o momento seguinte à aproximação vincula-se, também, aos outros sentidos: o tato, a audição, o olfato, que, aliados, compõem a atração pelo objeto desejado como um todo.

Está errado. Não amamos a noite, só não suportamos o sol.

No nosso mundo, no mundo em que eu teria um cachorro e um cajado, não seria nem noite nem dia. Seria o Tempo em que não haveria tempo. Tudo seria permanecer, exaustivamente, na beira de lagos onde mulheres desfiguradas trepariam com plantas marinhas. Meu cajado, eu o daria um nome bacana. Meu cajado Brökrroltress e meu cachorro Guarda-Chuva andariam pelas amplidões a morder multidões. Seria tudo bonito. Seria, mesmo tudo bonito se fôssemos mais… qualquer coisa dessas.

Nas relações amorosas, o gesto,

o toque, a voz,

o corpo, o beijo e o cheiro da pessoa amada são percebidos em sua especificidade e totalidade erótica. Nestes momentos, cegos e não-cegos transitam por horizontes singulares e, ao mesmo tempo, semelhantes. Comporíamos sonatas mudas e plantaríamos mudas de arrudas mudas. Eu, meu cajado e meu au-au, andaríamos por sobre árvores e não beberíamos água. Não compraríamos aparadores de barba nem acordaríamos cedo em uma Terra sem sono. 100 anos para o fim. Aos nove meses de idade, L. A. S. foi internado em hospitais de outras duas cidades próximas a Taubaté até ir parar no Hospital Escola da Unitau. Sofria de moléstia pulmonar, tossia, o peito chiava,

mas respondia bem ao tratamento.

Os médicos consideravam que sua alta se daria em breve, conforme destacou a sentença de primeiro grau:

Sono e morte, as águias da sombra
Esvoaçam noite adentro nesta fronte:
O dourado retrato dos homens
Teriam-no tragado as ondas gélidas
Da eternidade. Em recife horrível
Esfacela-se a carne púrpura
E a voz escura clama
Sobre o mar.
Irmã de irada angústia, mira:
Uma frágil jangada naufraga
Sob estrelas, face
A face da noite que se cala

Dr. Georg Trakl

Monsieur Ciacci & Monsieur Barreto, texto encontrado no fundo de uma lanchonete, 1943, Tailândia.

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