Renato Ciacci e Tiago Barreto.

Março 19, 2008

O FIM DO MUNDO DO FIM.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 6:05 pm

O mundo acabou, pois não existem mais chapéus. O mundo acabou e com ele morreram Dante, Mozart e Van Gogh. Jaz Rimbaud na mais profundas das covas. E com ele os vermes, os versos e toda a vida. O mundo acabou, pois não há mais espaço; acabou por falta de dadaísmo, poesia e madeleines. Hoje o mundo acabou por ser imenso demais

 

O mundo acabou e continuamos a acabar. Sempre é fim e inícios não são mais que fins de estaticidades. Não há mais mulheres com cabelos bonitos.

 

 

 

“Deus está morto”. Nietzsche.

“Nietzsche está morto”. Deus.

“Fodam-se, novamente. Fodam-se, uma vez mais”. Dejaír.

 

Nada há mais e nada houve. Nada é o suficiente nem importate. Tudo é nada e nada é alguma coisa. – “Mas você quer, então, que tudo se foda?” – Se tudo for você, ou se você estiver em tudo, for parte de tudo, não me parece má coisa.

 

Ter fé o suficiente para que minha alma vá à algum Inferno Poderoso, a doer pela Eternidade. Ela foi encontrada! Quem? A infidelidade. Dela fizemos espadas, espátulas e somos felizes por isso.

 

Então tá tudo certo: Beckett, Ionesco e Paganini estão mortos. Nós também. Artaud, não. Ele está sendo masturbado em meio a ossos de índios. Eu estou morto, me suicidei há muito tempo. Jovens esquálidos desfilam com seus casacos de saudades de tempos que não viveram. Eu não desfilo. Eu rolo num Inferno peçonhento e peço para que não perguntem demais.

 

Traçando trópicos, homens demarcam eras demarcam homens demarcam o tempo. Mais um trópico. Trópico de Inexistência, trópico de possibilidades inesgotáveis que hão de esgotar a força vital do sujeito. Trópico de esvaziamento do sujeito, de multiplicação e mutilação. “Basta eu dizer meu nome para verem este corpo…”. Trópico de anulação, amordaçamento voluntário e vontades inflamadas, rolando pelo Vale de Agulhas. Olhos ávidos por cegueira.

 

Agora você me pede para falar sobre o fim de tudo? Se eu for o fim, como poderei falar assim de mim, de alguma coisa, de qualquer coisa? E quem mais foi o fim? E se formos o intervalo? Nunca se sabe, eu diria.

 

“…há devires que operam em silêncio, que são quase imperceptíveis” – A questão “o que você está se tornando?” é particularmente estúpida. Pois à medida que alguém se torna, o que ele se torna muda tanto quanto ele próprio.”.

 

 

 

                                                                      São Cosme & São Damião (andando de caminhão).

Março 17, 2008

Carro de brinquedo em segredo.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 4:26 am

Heliogábalo pula de galho em galho. Segue o rastro de Calígula. Calígula coagula junto à poça de sangue. Tudo lindo, até que não se pode mais fazer nada. Observar seria o bastante, mas um sapo não pode pular de patas atadas. Heliogábalo procura por seu par de anéis de chumbo, perdidos em bordéis. Calígula coagula e come, com gula, uma agulha. Uma jovem de 17 anos teve um dos olhos perfurado por uma caneta, durante briga com uma colega de sala na Escola Estadual Thiago Terra, que funciona no Caic da zona sul de Londrina, no Norte do Paraná. A agressão ocorreu na última quarta-feira a  noite, durante aula da turma de 5ª série. Ela foi encaminhada para o Hospital Universitário (HU) e corre o risco de perder a visão. Segundo informações da assessoria de imprensa do hospital, houve perda do cristalino do olho e a jovem já passou por uma cirurgia. Relaxamento. Prossigamos. Calígula compra a gula de uma mula. Pega a maleta e desce pelo corrimão. Heliogábalo tenta abalá-lo, balançando uma bengala de gala. Galanteando uma serpente, dá um gole n’água-ardente. Pensei em interferir na cena, mas uma súbita contemplação entrou-me pelos póros. Longas gargalhadas pela estrada de febre, coberta por rastros de lebres. A agressão ocorreu depois que a ví­tima chegou atrasada na sala de aula. Em razão do atraso, ela teria sido motivo de piada feita por um aluno e acabou revidando com agressões verbais. Segundo a diretora da escola, Maria Emá­lia Febri do Rio, a agressora teria se envolvido na briga. A professora disse que somente viu um tapa. Só depois ficamos sabendo que ela estava segurando uma caneta, disse Maria Emá­lia. No monte, Deus grita por meu nome. Em direção ao cadafalso, um homem manco a sorrir. Recebo os caprichos dos ventos e, eventualmente, precipito-me aos escombros. Calígula coagula-se em gula. Heliogábalo pula, de galho em galho, pelo teto do assoalho. Nos cantos desses lugares desconhecidos, tomba uma sombra.

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