Pensa-se a crítica, análise ou comentário literário como a escrita sobre a arte, não como escrita em que se chafurda na mesma.
Não se trata, aqui, de analisar nem sentir a arte. De modo que não há arte nem um discurso passível de análises ou sentires. Há um inferno.
Tomem um diálogo entre Gregor Samsa e Joseph K. (que são um, dois e vários).
Memórias, O Idiota, Crime e Castigo, O Jogador…
São coisas que não há… não há como… comparar com qualquer outra coisa.
Eu só li Memórias, Os Demônios e Noites Brancas.
Leia O Jogador assim que puder. É pequeno, barato e alucinado. É um canto de loucura.
Acho te interessaria, e muito, até por causa do teu romance.
O Dostoiévski me parece ser um dos mais depressivos e rancorosos autores da história da Literatura. Ele deve ter amargurado como um cão. Não mais que Kafka… Mas que sofreu, sofreu.
Então, eu ia falar do Kafka agora. Livros como O Processo e O Castelo remetem uma loucura absurda assim como O Jogador.
Eu não li O Castelo. Esse livro está na minha lista… Eu quero ler esse livro há muito, muito, muito, muito tempo.
Eu o tinha… mas foi pro saco.
Agora… O Processo é… Pavoroso. Aquilo é demasiadamente TRISTE. É de rasgar a alma.
Sem sombra de dúvidas é uma das melhores coisas que já li na vida.
Beckett, Kafka e Proust. São os meus prediletos.
Você diz “triste” querendo dizer, necessariamente, tristeza?
Sim, me deixa triste. É agressivo, é muito lógico e matemático, é uma prisão lógica… É um pedaço de chumbo fervendo no peito aquela merda. É desesperador. É humano demais… É grosseiro e frio. É triste pra caralho… Quando ele morre no final do livro… Eu fico realmente tomado de tristeza. É muito além aquilo lá.
Sei lá… Esse livro foi um grande baque pra mim.
Kafka foi um grande baque pra mim, aliás. Mas acredito que O Processo sintetize esse meu sentimento.Ele faz a gente rir… Só que está nítido que você está rindo e sangrando que nem um cão na sarjeta. É uma piada dolorosa o Kafka. E a questão é que não parece que o humor é intencional… Isso que me deixa fascinado.
Eu tenho a impressão que, pelo que dizem de O Castelo, se eu ler esse livro… Não vou querer ler mais nada. Vai tampar. rs
Bem, eu não me entristeci com O Processo. Eu me amargurei. É um livro, pra mim, de sufoco. Desespero, loucura… É como se o Kafka estivesse pedindo pra morrer o tempo todo. É horrível, não, necessariamente, triste. Foi uma marca muito grande em mim, também. O li ha alguns anos e ainda não me recuperei.
É. Amargurado. Sim… Talvez seja isso, mesmo. Eu não sei… Aquela atmosfera de constante opressão em torno do protagonista… É muito absurda. Juro que fico meio amargurado só de me lembrar da obra.
O Castelo é outro pesadelo, mas de outra forma… É circular, também, mas não é uma ferida tão… estapeadora quanto O Processo. É outra coisa. Horrível também. Kafka é tudo de mais horrível que já conheci.
Eu também fico. Kafka foi o único que conseguiu, mesmo, tirar meu sono.
Eu ficava suado, vidrado…
Sim, sim! Eu me lembro de ter ficado MESES meio “doente” por causa de Kafka.
Agora eu li um volume com as cartas que ele escrevia aos amigos… Aquela constante ponderação, necessidade de não incomodar aos outros com sua existência, a quantidade de explicações… Kafka viveu um Processo, cara. E, ao que parece, foi ainda pior do que o narrado no livro.
Nossa. É exatamente isso, cara. Ele parece pedir desculpas.
Eu tiro as aspas do seu “doente”. Adoentei-me mesmo. Foi um inferno. Isso, inferno. Kafka é, pra mim, o narrador do inferno. Essa palavra, me veio agora, resume a obra dele… Inferno. Tem um outro volume, um só de contos, ele tem um que se chama O Jejuador ou, em outras edições, O Artista da Fome. Aquilo é uma desgraça. DESGRAÇA.
Sim. É um inferno. Eu me lembro de não conseguir pensar nas coisas do cotidiano, após ter lido Kafka. Eu fiquei realmente amargurado… E grande parte disso, o que é estranho, de certa forma, se deu devido a uma total compaixão pelo Kafka homem. Pela pessoa do Kafka. Eu senti ele, mesmo. E fiquei profundamente abismado em amargura. Foi um inferno.
Puta que pariu… Agora, falando no cara, eu começo a sentir uma opressão no peito. Sério. Ele é tudo de mais agonizante que já pude ver em literatura.
Nossa… O Artista da Fome (ou ‘O Jejuador’)… Eu juro que me arrepio ao me lembrar daquele conto. É terrível.
É terrível… É um estrago.
Eu me sinto um Kafka, cara. Mas eu prefiro mirar-me em, por exemplo, Lautréamont. Faz menos mal, me parece.
Em Kafka, TUDO é tormento.
Sim. Isso é que é muito, muito estranho. Existem doses de lirismo em TODOS os malditos. TODOS eles… Existe uma beleza nos sulcos da coisa. Mas em Kafka… NÃO>
No Lautréamont, a mutação é um orgasmo… no Kafka, mais um entre tantas desgraças.
Em Kafka é só opressão.
Exatamente, cara…
Exatamente, mesmo.
Kafka é sofrimento, tortura, dor, opressão, desespero, amargura… É só isso.
É tudo isso, mas não é, pra mim, melancolia.
Eu não vejo nada de melancólico nele. Parece que ele nem tempo pra se entediar, pra chorar, teve: não teve tempo pra respirar. Parece ter vivido um furacão de desgraças.
Não. Não existe estado de melancolia em Kafka… E isso é evidente, pois não existe “calmaria”. Não é, mesmo, melancólico. É uma correria alucinada entre os fogos mais quentes do inferno.
É sem saída. É sem tempo de descanso e de choro. É ofegante o negócio. E amargo.
Eu costumo separar Kafka da coisa toda. Porque eu não tenho um sentimento literário por ele…
É, como dizem, “sem poesia, só agonia”. Kafka foi uma ferida que o tempo não conseguiu cicatrizar.
Isso. Isso.
Parece um relatório.
Ele parece um relator, não um literato.
Isso até por quê ele afasta-se das impressões pessoais (raiva, tristeza…), ele relata um mundo muito natural. E esse mundo é um lugar onde não há como viver-respirar. É um inferno.
Eu separo ele de tudo. Até Artaud eu incluo na lista dos geniais… Até Joyce, com todo a sua inventividade ‘fora do padrão’… Deixo-os junto com Jarry, Lautréamont, Beckett, Goethe, Faulkner, Camus… Eu consigo agrupá-los todos em um balde. Mas Kafka não é literatura… Não é romance, ensaio, poesia… É um retrato frio. Um relato, mesmo.
Que merda. Olha que coisa incrível… Eu estou com a nuca doendo só de me lembrar do Joseph K. morrendo no final de O Processo. E do artista da fome em suas últimas palavras.
Em mim, dói a barriga, a respiração fica dificultosa e o coração acelera. Eu lembro do Joseph K. subindo nas repartições da Justiça, no SÓTÃO, e narrando isso de forma bastante natural. É como morar no inferno e não se assustar, nem reparar direito, um lago de corpos deformados: é corriqueiro.
Acordar transformado numa barata e levar uma maçãzada, sonhar que andou à uma cova para, depois, descobrir que é sua própria cova…
É a desgraça. Kafka é a desgraça.
Sim. É a desgraça. Desgraça, inferno. É de ferir, mesmo. Machuca. Dói pra caralho. Os olhos ardem. Inferno alucinado.
Ele sofreu muito. Que merda isso.
Ele sofreu muito, mesmo. Muito.