Renato Ciacci e Tiago Barreto.

Janeiro 21, 2008

Família da Mulher Scherzo em Fá Sustenido.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 9:41 pm

            A mãe, o pai e o inferno são somente a introdução do canto de lamento do homem sem rosto. È preciso que agrade a velha que lhe inspira calafrios, é preciso que agrade a filha da velha, que reclama à velha todas as suas falhas de função, é preciso que faça um bom café, que agrade sempre, que não ouse segredar, é preciso que seja sempre preciso em suas poucas palavras de escravo, é preciso que não faça rolar a própria cabeça, para poder pisar na carcaça dos abutres que lhe cercam.

            Pausa para respirar.

             Depois de sair entre as veredas deste ninho de vento irrespirável, o homem sem corpo tenta reconhecer as mãos do carrasco. O homem é tão bom que pensa em fazer morrer todos os seus. Assassínio. Seu rosto parece ocultar alguma coisa enquanto não pensa em nada e não quer nada além de ser soterrado pelo céu e velejar pelo inferno. O homem sem bolsos perece e, por obrigação, sorri.

            Visão de um enforcamento.

            Lá, no lugar em que se encontra, há uma porção de pormenores hipervalorizados a serem envernizados pelos entulhos com quem convive. Os entulhos, os gravetos apodrecidos, acendem velas. Velha. A velha, o câncer e as cordialidades necessárias para a sobrevivência de um desejo-taquicardia lhe arrancam os olhos. O homem sem mãos precisa manejar a arma que lhe transportará à infinidade suportadora de suas varizes. Desaparecer é poder se livrar, é Testamento Maior, é Potência libertadora de seu ventre leproso.

            Cavando o buraco raso.

            Então, depois de um ano sobre o fio da navalha, resolve não olhar mais para os lados, nem para cima. É abjeto em suas pulsões de existência. Está tudo como deveria estar e, assim, tudo pode exercer o magnífico sabor que é o definhar completo.

            Amém.

 

 

 

 

                                                                                              São Francisco de Assis.

O vento vem de onde?

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 6:35 am

Ele sobe as escadas escandalosas de sua fome e, do alto, pendurado febrilmente à janela de sua boca escancarada, antiga, morta de dentes, faz escapar uma espécie de polido murmúrio. Não tenho nada para lhe dar!, responde a velha florida em rumo à Igreja de São Batista. Em passos rápidos, a senhora logo se afasta da criatura que manchara sua manhã de domingo. Firme e perfumada, rezaria solenemente, joelhos ossudos na tábua, ao Cristo já crucificado.

Os olhos quentes, os lábios sujos, os piolhos, as feridas. Ele tomba. E desmaiante, percorre em queda surda os degraus de seu desespero. Por fim, cai morto entre o estômago já calado e a cava inferior. A cena coronária é negra. E na noite, duzentas estrelas.

Agarrada ao terço, a velha reza. Meias confortáveis de algodão italiano. Branquinhas, branquinhas.

Já frio, o cadáver permanece sobre a calçada menos famosa da cidade. Uma mosca sai de sua orelha.

E na noite, duzentas estrelas, duzentas estrelas.

DE ONDE VEM O VENTO

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 5:56 am

            Sobre a inclinação, Larissa debruça-se sobre si mesma. Os ferimentos no céu demonstram o futuro em sua cartografia do passado, a flutuar sobre o mar.

            Larissa sente o peito, comprimido como um papel amassado, atirado ao léu de corredores intermináveis que se formam no vácuo. Do céu, um estrondo a ecoar.

            Seus passos imaginários sobre o muro da Aventura são amarrados ao sentimento libertador e desastroso que, em todo caso, não é mais que Véspera. Seu olhar, congelado, parece visualizar um anjo enforcado sobre o mar.

            Larissa velejou pelo mundo que lhe saltou aos olhos e abriu a tampa do universo. Curiosa, viu que não há o que ver…

            Larissa chora…

            Não vem ao rosto uma única lágrima.

            Larissa apenas olha, em paz. E, em paz, tudo fulminará até que não haja mais glória, perda ou sossego. Larissa constrói um monumento por sobre as costas do mundo, Larissa congela-se, passeando sobre o mar, Larissa é um grito mudo, terno e frio, Larissa é o sabor das águas que a conhecem por dentro.

            O olhar paternal dos astros não pode calar o longo gemido precipitante que galga pelo infinito. Lá, há o murmuro dos cabelos acariciados pela colisão com a rocha secular.

            Inconsolável.

            Botões ensaboados trafegam entre a areia. Não há nada que não possa ser encontrado nos olhos de Larissa. Vazios. Vazios, tonéis são jogados às ondas, que os engole com paixão. O sal é o precipício do sol. Larissa faz bolhas de sabão pelo ar. Degolado.

            Larissa é o anjo que colore a paisagem jamais apreciada.

            O predregulho fraterno parece resguardar o segredo que Larissa não julga a mérito dos passantes…

            A interrupção dos homens e a vaidade peçonhenta das mulheres…

            Larissa não é mulher, é Deus.

            Faz caminhos intrafegáveis onde a infinita ternura de seu ventre estilhaçado é o borrão imperceptível. Os navegantes, pobres homens, encontram o saco de esterco e o devolvem aos corais.

            Irreconciliável.

                                                                                                                                    Santo Agostinho.

Janeiro 18, 2008

Marca no braço de Cristina. Tomo I

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 6:43 am

                Cristina andava. Manhã. Ia à escola, eu acho. Andava. Pés para destro e sapatos desamarrados. Era como se desfilasse entre fadas. Cristina era uma fada. Uma fada fadada a ir à escola. Todas as manhãs. Não tinha idade pra isso, mas queria aprender a fumar. Com seus sapatinhos brancos e seu pezinhos tortos, Cristina ia à escola. Era uma menininha muito bonitinha que gostava de chutar pedrinhas que encontrava na rua. Não eram muitas, mas isso não a aborrecia. Graça. No caminho da escola, Cristina pegava seu estojo de lápis coloridos e desenhava no asfalto.
 
                 Cristina comprou um maço de cigarros.
 
                 Ela não tinha um cão, nem pensava nisso. As meninas da escola gostavam de cães; Cristina, de enfiar a mão no barro que encontrava. Ela se lavava depois. Era branquinha e tinha os cabelinhos pretos.

                 Cristina ganhou um canivete de um cão bondoso.

                 As meninas da escola tinham cães e tinham flores. E não chutavam pedras. E não gostavam de barro. E jamais pensavam em cigarros. Cristina, ao centro do mundo, marchava, caminhava à escola. Sem sorrir. Ela contava os passos e, junto aos passos, uma série de outros sinais. E contava. Com os passos, as pedras, o pulso e os passos. Cristina vinha de rodar o mundo. E em seu mundo contava. Um, um.
                 Cristina andava. Manhã. Ia à escola, algo assim. Pés nos sapatos desamarrados, suspensa entre a grama do jardim da Sra. Normal, como se feita de vento. Lento, um cão caminhava, engolia pedras, aprendia a fumar. Com suas patinhas tortas, suas pulgas e seu cão.

                 Não é bem isso. 
 
                 Não é bem isso e, apesar de tudo, Cristina prosseguia fadada ao avanço morno, pelas ruas da cidade. Um, dois, um dois.
 
                 Passos.
 
                 Não importava se eram de Cristina. Não importa, fossem de quem fossem, serão sempre os mesmos passos. Um passo se repetindo. Eternamente.

São Thomás de Aquino, o Esquimó.

Janeiro 16, 2008

O NASCIMENTO DO SOL

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 5:26 am

Véus caídos sobre corpos frígidos, observados por um espectador vidrado, são o Monte em que o homem, com seu passo arrastado, escolhe por cadafalso de um olhar lacrimonioso. Um dia, depois do turbilhão relampejante de pensamentos atordoantes, uma mosca resolve, contra tudo o que se tinha por expectativa, silvar as hastes de seu corpo parcimonioso. Seria mais fácil observá-la em seu ato sóbrio se eu, o Filho do Homem de testa acinzentada, não estivesse envolto por uma informe substância amarela! Caído sobre o ventre da Consolação, o homem recolhe seus pedaços insidiosos e, entre espasmos de uma estranha força movedora, sorri. Sua mão, trêmula como o espírito humano, geme de dor aos olhos seguros do Carrasco. Este Carrasco, que o espreita do lado de dentro do crânio, navega entre líquidos vermelhos e cavidades ósseas até, finalmente, se alojar nas fendas viçosas de seus dentes amarelos… Os véus, estraçalhados pelos movimentos epilépticos daquele que é rodeado pela mosca rosa, juntam-se em perfeita união, fazendo a corda que envolve o pescoço resoluto de uma velha senhora; fazendo o trapo que limpa a vagina estilhaçada da mulher de amor; fazendo a mordaça que faz calar o choro do recém-nascido; fazendo o pano em que inscrever-se-á o Testamento dos povos vindouros de olhos arrancados… A perfeita ebulição harmoniosa de homens que copulam entre si, no lago de areia sobre o qual nascem multidões esqueléticas com cabeleiras grisalhas.

VENTO POR SOBRE O MAR

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 5:26 am

Incapaz de alcançar as torpezas do Paraíso e de velejar pelas cachoeiras do Inferno, o Outro escolhe abrigar-se nas vidraças invisíveis do ocaso… E descobre a insolação de suas ventosas cancerosas!

 

Pois eu, que hora vos escrevo, salto à luz para estar à vista de vós, atiradores desprovidos de olhos, mãos e munição. Eu, eu que, neste exato momento, declamo essas palavras ao infinito de um céu que cai, apareço no espetáculo… E sobressaio sobre vossos corpos.

 

Durante tempos, habitei os corredores do subsolo da existência e do labor. Hoje, caminho sorridente pelas amplidões vazias em que a Corrupção fixou morada… E germinou todo um Universo.

 

Pois direi, uma única vez, o que haveis de fazer, homem de cabeça baixa e olhos fixos no vazio:

 

Deverás, a princípio, arrancar o dedo anelar de vossa mão esquerda e introduzí-lo em um orifício em vosso ventre. Feito, colocar-vos-á por sobre a carcaça de todos os seus e assim, inclinar-se-á para baixo até que possas girar sobre si mesmo. Rompendo vossa espinha dorsal, formará uma bola de carne e, por fim, atirar-vos-á à rinha onde cães ferozes destroçarão seu corpo, formando migalhas que hão de formar um novo corpo, do qual nunca hão de se esquecer[1].

 

Só assim a perene felicidade será alcançada.



[1] Referência ao texto de Deus chamado Para Acabar com o Julgamento de Artaud, psicografado por Zé da Silva.

ASAS DO INFORTÚNIO

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 5:25 am

Possessão diabólica do ventre perfumado até a sombra cataclísmica que, na tarde de domingo pairou por debaixo das nuvens cinzas onde dois polvos alados[1] trafegavam, pesarosos, a espreitar a multidão de pedregulhos que se chocavam em uma dança frenética, convulsiva.

 

Quadros despedaçados ornamentavam o cubículo em que um novo Deus se contorcia em espasmos. Seus nervos, rijos, pareciam lesmas banhadas por sal por sob o sol.

 

O duplo-oposto virginal insólido foi encontrado no fim da tarde, apodrecendo no matagal. Há uma montanha de ossos por sobre a cidade.

 

Enquanto isso, enquanto um casal copulava sobre pedras, o corpo-morto se arrasta pela amplidão vazia. Em seus gestos, banhados pela fúria e acalmados pela desordem, há o emaranhado de vespas chorosas que nascem no fundo do mar. Seus olhos parecem os de uma mulher adúltera.

 

No final do domingo, restou a dor que será, até o último de seus dias, companheira inseparável.


[1] O primeiro a ver tais seres foi O Outro de Montevidéo.

OMBROS CORTADOS

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 5:24 am

Envenenado no dorso da ventura póstuma, prossigo entre calafrios e apertos de doçura que me congelam o peito. Estou inerte, encostado na muralha de corpos onde apodrecem meus amores. Uma pilha de lebres decapitadas surge à minha frente… E prossigo, abrindo fendas em tudo o que se encontra ao alcance de meu olhar. Há anos não sou envolvido pelas pérfidas e miraculosas asas do sono… E hoje, em meio ao furacão mudo e ao quadro doce da amada de punhais empunhados, durmo acordado. Arrancados, meus olhos rolam pelo mundo e choram por não haver quem neles pise, estourando-os.     

Janeiro 14, 2008

KAFKA, O RELATOR DO TORMENTO.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 6:42 am

Pensa-se a crítica, análise ou comentário literário como a escrita sobre a arte, não como escrita em que se chafurda na mesma.

 
Não se trata, aqui, de analisar nem sentir a arte. De modo que não há arte nem um discurso passível de análises ou sentires. Há um inferno.

 

Tomem um diálogo entre Gregor Samsa e Joseph K. (que são um, dois e vários).

 

 

 

Memórias, O Idiota, Crime e Castigo, O Jogador…

São coisas que não há… não há como… comparar com qualquer outra coisa.

 

Eu só li Memórias, Os Demônios e Noites Brancas.

 

Leia O Jogador assim que puder. É pequeno, barato e alucinado. É um canto de loucura.

Acho te interessaria, e muito, até por causa do teu romance.

 

O Dostoiévski me parece ser um dos mais depressivos e rancorosos autores da história da Literatura. Ele deve ter amargurado como um cão. Não mais que Kafka… Mas que sofreu, sofreu.

 

Então, eu ia falar do Kafka agora. Livros como O Processo e O Castelo remetem uma loucura absurda assim como O Jogador.

 

Eu não li O Castelo. Esse livro está na minha lista… Eu quero ler esse livro há muito, muito, muito, muito tempo.

 

Eu o tinha… mas foi pro saco.

 

Agora… O Processo é… Pavoroso. Aquilo é demasiadamente TRISTE. É de rasgar a alma.

Sem sombra de dúvidas é uma das melhores coisas que já li na vida.

Beckett, Kafka e Proust. São os meus prediletos.

 

Você diz “triste” querendo dizer, necessariamente, tristeza?

 

Sim, me deixa triste. É agressivo, é muito lógico e matemático, é uma prisão lógica… É um pedaço de chumbo fervendo no peito aquela merda. É desesperador. É humano demais… É grosseiro e frio. É triste pra caralho… Quando ele morre no final do livro… Eu fico realmente tomado de tristeza. É muito além aquilo lá.

Sei lá… Esse livro foi um grande baque pra mim.

Kafka foi um grande baque pra mim, aliás. Mas acredito que O Processo sintetize esse meu sentimento.Ele faz a gente rir… Só que está nítido que você está rindo e sangrando que nem um cão na sarjeta. É uma piada dolorosa o Kafka. E a questão é que não parece que o humor é intencional… Isso que me deixa fascinado.

Eu tenho a impressão que, pelo que dizem de O Castelo, se eu ler esse livro… Não vou querer ler mais nada. Vai tampar. rs

 

Bem, eu não me entristeci com O Processo. Eu me amargurei. É um livro, pra mim, de sufoco. Desespero, loucura… É como se o Kafka estivesse pedindo pra morrer o tempo todo. É horrível, não, necessariamente, triste. Foi uma marca muito grande em mim, também. O li ha alguns anos e ainda não me recuperei.

 

É. Amargurado. Sim… Talvez seja isso, mesmo. Eu não sei… Aquela atmosfera de constante opressão em torno do protagonista… É muito absurda. Juro que fico meio amargurado só de me lembrar da obra.

 

O Castelo é outro pesadelo, mas de outra forma… É circular, também, mas não é uma ferida tão… estapeadora quanto O Processo. É outra coisa. Horrível também. Kafka é tudo de mais horrível que já conheci.

Eu também fico. Kafka foi o único que conseguiu, mesmo, tirar meu sono.

Eu ficava suado, vidrado…

 

Sim, sim! Eu me lembro de ter ficado MESES meio “doente” por causa de Kafka.

 

Agora eu li um volume com as cartas que ele escrevia aos amigos… Aquela constante ponderação, necessidade de não incomodar aos outros com sua existência, a quantidade de explicações… Kafka viveu um Processo, cara. E, ao que parece, foi ainda pior do que o narrado no livro.

 

Nossa. É exatamente isso, cara. Ele parece pedir desculpas.

 

Eu tiro as aspas do seu “doente”. Adoentei-me mesmo. Foi um inferno. Isso, inferno. Kafka é, pra mim, o narrador do inferno. Essa palavra, me veio agora, resume a obra dele… Inferno. Tem um outro volume, um só de contos, ele tem um que se chama O Jejuador ou, em outras edições, O Artista da Fome. Aquilo é uma desgraça. DESGRAÇA.

 

Sim. É um inferno. Eu me lembro de não conseguir pensar nas coisas do cotidiano, após ter lido Kafka. Eu fiquei realmente amargurado… E grande parte disso, o que é estranho, de certa forma, se deu devido a uma total compaixão pelo Kafka homem. Pela pessoa do Kafka. Eu senti ele, mesmo. E fiquei profundamente abismado em amargura. Foi um inferno.

 

Puta que pariu… Agora, falando no cara, eu começo a sentir uma opressão no peito. Sério. Ele é tudo de mais agonizante que já pude ver em literatura.

 

Nossa… O Artista da Fome (ou ‘O Jejuador’)… Eu juro que me arrepio ao me lembrar daquele conto. É terrível.

É terrível… É um estrago.

 

Eu me sinto um Kafka, cara. Mas eu prefiro mirar-me em, por exemplo, Lautréamont. Faz menos mal, me parece.

Em Kafka, TUDO é tormento.

 

Sim. Isso é que é muito, muito estranho. Existem doses de lirismo em TODOS os malditos. TODOS eles… Existe uma beleza nos sulcos da coisa. Mas em Kafka… NÃO>

 

No Lautréamont, a mutação é um orgasmo… no Kafka, mais um entre tantas desgraças.

 

Em Kafka é só opressão.

Exatamente, cara…

Exatamente, mesmo.

Kafka é sofrimento, tortura, dor, opressão, desespero, amargura… É só isso.

 

É tudo isso, mas não é, pra mim, melancolia.

Eu não vejo nada de melancólico nele. Parece que ele nem tempo pra se entediar, pra chorar, teve: não teve tempo pra respirar. Parece ter vivido um furacão de desgraças.

 

Não. Não existe estado de melancolia em Kafka… E isso é evidente, pois não existe “calmaria”. Não é, mesmo, melancólico. É uma correria alucinada entre os fogos mais quentes do inferno.

É sem saída. É sem tempo de descanso e de choro. É ofegante o negócio. E amargo.

Eu costumo separar Kafka da coisa toda. Porque eu não tenho um sentimento literário por ele…

 

É, como dizem, “sem poesia, só agonia”. Kafka foi uma ferida que o tempo não conseguiu cicatrizar.

Isso. Isso.

Parece um relatório.

Ele parece um relator, não um literato.

Isso até por quê ele afasta-se das impressões pessoais (raiva, tristeza…), ele relata um mundo muito natural. E esse mundo é um lugar onde não há como viver-respirar. É um inferno.

 

Eu separo ele de tudo. Até Artaud eu incluo na lista dos geniais… Até Joyce, com todo a sua inventividade ‘fora do padrão’… Deixo-os junto com Jarry, Lautréamont, Beckett, Goethe, Faulkner, Camus… Eu consigo agrupá-los todos em um balde. Mas Kafka não é literatura… Não é romance, ensaio, poesia… É um retrato frio. Um relato, mesmo.

Que merda. Olha que coisa incrível… Eu estou com a nuca doendo só de me lembrar do Joseph K. morrendo no final de O Processo. E do artista da fome em suas últimas palavras.

 

Em mim, dói a barriga, a respiração fica dificultosa e o coração acelera. Eu lembro do Joseph K. subindo nas repartições da Justiça, no SÓTÃO, e narrando isso de forma bastante natural. É como morar no inferno e não se assustar, nem reparar direito, um lago de corpos deformados: é corriqueiro.

Acordar transformado numa barata e levar uma maçãzada, sonhar que andou à uma cova para, depois, descobrir que é sua própria cova…

É a desgraça. Kafka é a desgraça.

 

Sim. É a desgraça. Desgraça, inferno. É de ferir, mesmo. Machuca. Dói pra caralho. Os olhos ardem. Inferno alucinado.

Ele sofreu muito. Que merda isso.

Ele sofreu muito, mesmo. Muito.

Janeiro 11, 2008

“Pedaço.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 8:21 am

Agarro uma recordação qualquer e percebo que se apresenta ao meu coração uma imagem de Beatriz procurando motivos poéticos no barulho de uma chuva de verão. E me lembro do dia em que o céu, com todos os seus mares e estrelas, caiu sobre meu peito, e qualquer coisa como uma imensa sístole mordia minha alma de uma só vez.

E então passa.”

Will Shakespeare.

Tradução: Oswaldo Montenegro.

Kant-zinho.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 8:20 am

               “O exame do espaço não nos mostra coisa alguma, quero dizer, não, não quero dizer nada. Mas ao mesmo tempo, também, porém, concomitantemente, em paralelo, resumindo, a idealidade do espaço relativamente às coisas todas, quero dizer, sem entender a natureza de nossa, não entendi.
                 Afirmamos, pois, a realidade do império britânico em relação a toda expepepeperiência externa. Impossível. Me desculpem. Mas reconhecemos também a, o quê, mesmo? Transcendente idealidade à esmo. Não é? Não existência, momento, condições, possibilidade, experiência, algo, fundamento e às.”

PURA, Razão. Entrevista cedida a Kant em 1871.

Kant comigo, Renato.

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 7:57 am

              “Nosso exame do espaço mostra-nos a sua fecalidade¹, quer dizer, o seu valor abjetivo relativo a tudo aquilo que pode apresentar-nos depois de havermos cometido o pecado de existir; mas ao mesmo tempo, também, a irrealidade do espaço relativamente às coisas con­sideradas em si mesmas ou subjetivas, quer dizer, a abjeção da existência subjetiva e em si do sujeito se dá no ato de existir ou, ainda, inexistir racional do mesmo.
               Afirmamos, pois, a irrealidade empírica do es­paço em relação a toda experiência interna possí­vel; mas reconhecemos também a materialidade imanente do mesmo, quer dizer, a sua degenerescência, desde o momento em que abandona­mos as condições de impossibilidade de toda existência e cremos que possamos, depois de despertar do não-ser, ser alguma coisa que não seja a completa putressência material, ideal ou, ainda, cosmológica.”

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura, 1781.

¹ Todos sabem que Artaud retirou este conceito da obra de Kant.

Kant com aspargos.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 7:36 am

                “Nosso exame do espaço mostra-nos a sua re­alidade, quer dizer, o seu valor objetivo relativa­mente a tudo aquilo que se pode apresentar-nos como objeto; mas ao mesmo tempo, também, a idealidade do espaço relativamente às coisas con­sideradas em si mesmas pela razão, quer dizer, sem atender à natureza de nossa sensibilidade.
                Afirmamos, pois, a realidade empírica do es­paço em relação a toda experiência externa possí­vel; mas reconhecemos também a idealidade transcendente do mesmo, quer dizer, a sua não existência, desde o momento em que abandona­mos as condições de possibilidade de toda expe­riência e cremos seja ele algo que serve de fun­damento às coisas em si.

Kant em sua crítica da razão pura, 1781.

Vamos lá, Tiago?

11

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 7:26 am

              Vejo o véu de antes. A pluma na vasta aurora, como numa aquarela. Ninguém ascende, tudo acende em chamas de uma quietude terrificante. E, no sonho, penso na noite dos homens exaustos do ócio. A noite é dia. Tudo dorme. Em algum lugar, em determinada cena, um homem piolhento abraça sua carcaça de óleo e se insinua contra as paredes, contra o Abismo. Estilhaços. Este cão sarnento manca, arrasta-se por escadas. Acalmado, o sol promete não voltar de suas veredas sinuosas até que se esfaleça nos corredores da noite. A cidade dorme em sono branco. Tudo é dia. Vivos, sempre vivos. Quando poderei vestir as cores? Sempre-Vivos acima de corpos chafurdados em leite materno. Sempre-Vivos a espreitarem os últimos passantes. Adormecidas em pântanos sorridentes, aves constroem janelas com alpistes de chumbo.

Ela tinha lido um livro do Faulkner e

Arquivado em: TEXTOS — Tiago Barreto @ 7:01 am

ficado toda assim, arborescida com o livro. Então eu disse a ela que um livro era só um livro e que Faulkner havia sido um grande merda. Ela sorriu durante muitos anos. Gargalhou. Tomava remédios longos e um monte de banhos coloridos. Lá, onde ninguém poderia olhar, eu ria de toda a situação. Nada a fazer. Eu gostava de ficar olhando enquanto ela abria as pernas pra se coçar, encostava na cadeira de plástico e, de repente, pensava que eu poderia ser a faxineira da casa de alguma madame entediada.

Ela seria uma flor.

Janeiro 7, 2008

Ela tinha lido um livro do Faulkner e

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 6:45 am

ficado toda assim, aborrecida com a vida. E então eu pedi a mão dela em casamento e a levei para uma casa muito interessante que tinha paredes. Ela chorou durante muitos anos. Tomava banhos longos e um monte de remédios coloridos. Fazia bastante frio lá dentro. Eu gostava de ficar olhando o jeito com que ela abria as pernas pra se sentar na cadeira de plástico que tínhamos na

Não.

Petrouchka Encaixotado

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 6:40 am

(…)

III

Rola o rio de minha alma
Água corrente correndo parada
Veja, é meia noite
Vivas almas verão o sonho
[                                                               ]
E dentro do sonho mais nada

(…)

¹

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 6:35 am

                Vejo o céu de antes. O plúmbeo e vasto céu de outrora, dito por minha janela. Alguém, em algum lugar, acende uma luz que balança. E na noite, penso no sono dos homens tão exaustos de si. A noite é fria. Tudo dorme. Em algum lugar, em determinada cena, um cão sarnento manca um lance de escadas. Torto, mudo e apagado, agosto dorme sem coração. Me lembro de Raco Quase-Morto errando pelo inverno glacial das ruas da cidade. Quase morto, quase morto. Essa cor, essas cores, até quando poderei dizê-las? Não importa. Quase-Morto erra abaixo dos mares de chumbo. Tudo dorme. Tudo pesa. Avanço, revolvo-me nos pântanos. Não são pântanos. Uma ave, enamorada de minha janela, golpeia o vidro com seu bico imundo. Não me movo.

²

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 6:29 am

                A luz de mais uma débil manhã é dita por minha janela. Dimensões. Paro em uma posição detalhada e respiro alguns bocados do ar-já-velho-conhecido enquanto uma ave atrapalhada procura algo sobre o parapeito do meu mundo. Há quinze manhãs venho sentindo dores estranhas na parte detrás da cabeça. Quinze, dez, pouco importa. Sinto que me escapa um bom pedaço da alma quando penso em números, contudo não posso deixar de calcular, tentar calcular certas coisas. São tempos. Minhas matemáticas desaceleradas. É a vida que se vai sem que recolha a mão. Sem que me agarre pelo colarinho. Uma simples equação balanceada. Sou um saco de histórias.

                A mim as histórias do meu espírito cansado. Por vezes em profusões de cores quentes, em um bosque estufado de flores, em um dia de verão. Por vezes somente as flores. Ou nada. Enquanto inventar me inventa. O verbo. Latitudes, longitudes. Devo saber o que estou dizendo. Um pouco em tudo, mais ou menos.

Mentira.

Arquivado em: TEXTOS — Renato Ciacci @ 6:19 am

                Miro o céu através da vidraça. É quase manhã e ainda dormem os homens. De repente, como se a madrugada respirasse, instaura-se na atmosfera uma luz pálida despejada através das nuvens de mercúrio. É uma espécie de luz desmaiada, tão diferente, por exemplo, daquelas que se explodem nas giestas, durante os secos dias de verão. Acompanho o espetáculo das sombras em festa. Redimensionam-se, serenizam-se. Projetam-se em bilhões de quadros por segundo, em círculos compassados, sobre si mesmas, dançando a dança dos ponteiros, no corsi e ricorsi das vielas da cidade. Aos poucos distingüo uma figura um terço congelada, entre os chorões desfolhados que trilham a calçada da igreja. Um cão. E é só. A janela diz dia raiando. Uma luz se acende, balança. Eu choro.

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