
Outubro 26, 2009
Setembro 14, 2009
Canção do absoluto desprezo às senhoras que não são quentes.
“dentro de um segredo
imerso em quês
um homem
morre
morre
um homem
imerso em quês
dentro de um segredo”
.ebas méugnin euq o ies ue ,ebas méugnin euq o ies ue ,edrat ad éfac o ,satelam ,satenuLunetas, maletas, o café da tarde, eu sei o que ninguém sabe, eu sei o que ninguém sabe. O casal à viela estuporada à noite velada à luz alucinada dos olhos dos homens, lunetas, maletas, lunetas e solitários, lunetas e solitários, eu digo o poema, eu rio o poema, atiro o poema, cuspo o poema contra o espelho, contra o espelho sou o poema. Eu sou o poema. Atravessantes vagabundos nublados, esqua-qua-drinhados: lunetas, maletas e o café da tarde. Instante. O céu, um homem.
Setembro 5, 2009
PEDAÇO DE CORTINA
As horas descem
Esbarrando no telhado
Cravando marcas nas paredes
Beijando mãos hábeis
Crueza encrudescente
Copos ao céu
Corpos ao cão
Nasce a variz sangrenta
Nasce o flagelo do varão
Fogo cavidade fria
Luz primavera negra
Fósseis empalhados
Acuidade dia
A cuidar cansaço
Asco em dar casaco
Chuva sinfonia.
Agosto 31, 2009
DOIS VAGABUNDOS GORDOS
Os seres humanos são sacos de merda ambulantes. Então saímos por aí, nós dois. Nós dois, nós dois bandidos. Somos o Diabo , o Pecado, a Maçã. Nós dois mentimos, parco amigo. Porco amigo, irmão, divã. Nos encontramos no escuro. O brilho de nossos dentes é a Estrela da Manhã. Meu igual, meu amarelo amigo, te jogo na cara essa página malsã. Pra você, que gosta da Valsinha, faço mais uma riminha de hortelã.
VENENO!
VENENO!
VENENO!
CANÇÃO DE AMOR INCINERADA
Eu fico pensando
Pelas tantas da madrugada
Que esse sossego
Só pode existir
Se for com o seu chamego
Flor da manhã
Brilha durante a noite
Eu preciso do seu amor, benzinho
Nele, me afogar
Chego com calma
Desprendo meu sapatear
Três flores na boca
Baile de línguas fogo mar
Devaneio galopante
Sobre montanha de Lua
Durmo em você
Noite de blues frio
Trafegando pela maré
Criança-nuvem clara dia
Nos banhamos de ar
Re-pia.
JURAMENTO
Entregar-te-ei um presente
Um doce
Presente amarelado
Emaranhando cabeleiras rotas
Debruçado sobre seu ventre
Entre suas brumas frias
Suas montanhas brancas
Suas quentes Marias
Palco borrado navega em sonhos
De mãos dadas
Flutuante tarde fria
Cintilante véu branco
Nova estação colorida
Faces rosadas pela manhã
Demônios correndo pelo quintal
Sorrindo, vamos ao passeio
Pulando, bordando
Peles rasgadas do Céu.
Agosto 26, 2009
Aleggro iv
eu sei que há uma montanha, do outro lado da ponte. sei dos surtos e dos suplícios, por isso passei quinze anos inventando a história da vida que eu vivi. eu vivi, de alguma forma, quero dizer. eu passava todas as horas do dia imaginando como seria se… bem, todos vocês tem uma ou mais pernas, não é bem verdade? Bem, eu falava sobre a minha história… lembro de homens que esbravejavam por praças e em ruas agitadas. cheiro de comércio e sangue de animais diluído em água e sabão. cães bebiam a água ensopada que deslizava pela viela; era água. como tal, molhada. o único critério para a água é que ela seja molhada. a água que se despeja lentamente no copo, que beija o fundo em alquimia cintilante, que molha as paredes circulares do topo e excede, em pouco ou muito, a borda delimitada para o encontro do recipiente com os lábios. a água é a ultraviolência e nasce em uma montanha, do outro lado da ponte. bilhetes adormecem aos pés da ponte e, como toda ponte, ela não faz nada. o sol estapeava a fronte adormecida do cão. o cão, ao se precipitar por sobre a ponte, caía dela. esmagado por uma carruagem, o cão é o berro absurdo que envolve todas as membranas da cidade. clarinetes de arcanjos trovejavam aos quatro cantos. com cuidado para não engolir um pêlo – para não entupir a garganta – é necessário se comer o gato. patas macias acariciam chão esmaltado. sobre o corpo da filha, o gato sem dizer palavra. seu rabo arrancado tremula pelos ares, sobre a montanha. se você encontrar seu reflexo. couraça mobilizada em sonho. todas as vozes ressoam. harmonia. enforcado.
Estribilho
Encrave destoado
Adeus em silêncio
Lábios cortados
Núvens de suor
Peste
Pestanejo
Glória Esfinge
Licor
Suave rançoso firmamento
Linhas frágeis
Lagos, lábios
Raiz crista
Escorrer morro abaixo
Desabar mar adentro
À destra, claustro, canto
Cataratas cacarejando créu cruento
Semeando na montanha
Nos ares, pinhais
Prédios tremulam
Baterá asas diante seus olhos
Calafrio, confusão.
Agosto 17, 2009
Ad mi ração.
Orquestra insolado
Suor sobre Mantra Sagrado
Prata o dia se atira do Telhado
Noite esfaqueada
Sangue cobre Manto Sacrado
Suave é o Tormento.
Agosto 7, 2009
Frango & alho.
“…e quem disse que é da graça que se ri?”, escreve um fleumático Renato em 2006.
A pergunta, que é afirmativa de uma dúvida e, ao mesmo tempo, a abertura outras possibilidades (e impossibilidades) de riso, é resultante de um trabalho de esvaziamento do riso: é o enegrecer dos céus durante o desfile carnavalesco – fiasco de morte no círculo do riso.
Mais do que indagar o porquê do riso, Renato o coloca em xeque. Agora, no entanto, é hora de colocar Renato em xeque.
Proposição: Quem precisa dizer alguma coisa acerca de qualquer coisa para que essa coisa continue operando e, mais, construa, em maquinarias autopoiéticas, novas possibilidades de funcionamento?
Saindo da retórica (“quem é que disse o quê disse que quem disse o quê?”), é necessário que se delimite o que é riso e graça.
Riso, num primeiro momento – mesmo o amarelo ou a ironia venenosa –, é o intermezzo entre o ser e o sagrado: é a linha de conexão onde os fluxos se desordenam e, então, surge uma outra categoria que agora não discutiremos: o prazer.
Graça é o encontro do ser (é bom lembrar que por ser não se entende uma categoria identitária, mas uma imagem, um retrato – a fotografia não apreende uma realidade, retrata um microssegundo irrepetível) com o sagrado. É o êxtase alcançado pelo religioso quando em contato com o Divino, pelo drogado quando excede o limite da satisfação com a droga (quando é surpreendido pelo Excesso): é o orgasmo operando em um corpo, um corpo tomado pelo orgasmo.
Não é, pois, “da graça que se ri”; isso diria que é possível mirar a graça como um objeto externo ao ser e não se pode conhecer a graça senão quando em contato com Ela. Só se pode conhecer uma coisa quando se torna tal coisa. A vivência imediata do Sagrado é o conhecimento d’Ele; o riso é o estado de encarnação da graça.
Não se ri da graça, mas com a graça. Não há outra possibilidade de riso senão esta.
Julho 2, 2009
Abrigo secreto.
Quando, Implacável & Escura
A Noite cái sobre a cidade
Tantos corpos, nus, passeiam silentes
Nas avenidas obtusas
Nas vielas de veneno
Sua crosta fria, grande manto
Círculo de fogo dança cataclisma
“Avise se as algemas ficarem desconfortaveis”
Todos soluçamos & nos desbaldamos
Sorrimos
Enquanto Ela
Nos cobre
Brônzeo mármore escuro
Fita inerte o Eterno Vale
Condenados ao Sol-pôr
Vida pulsando em cadáveres
Pausa convulsiva
Momento de calma
O objeto reluz ao escuro amorfo
Você morrerá até o nascer do Dia
Posso ver seus olhos enforcados
Cabelo retine Inferno cor
Não poderemos abandonar o______________
Nessa cela aquecida
Frio que invade as frestas
Queima os ossos
Em masturbação
Percorri as Sete Cidades
Pirâmides destruídas em miríades
Shiva que dança & rodopia
Outro lado
Muralha de corpos amontoados
Aglutinados
Espere um segundo
A criatura parece…
Espere!
A Fera está à solta!
A Fera está à solta!
Posso sentir seus passos em meu peito de negro
Bruxaria encardida
Trofeu de
Santuário respirante
A Fera está à solta!
A Fera está à solta!
A janela espera
Escorrer…
Escorrer…
Ex-correr
A Fera está à solta!
A Fera está à solta!
“Avise se as algemas ficarem desconfortáveis”
Cabaré incendiado num dia de verão
A morte dança, todos verão
Vocês podem ver?
A Fera está à solta!
A Fera está à solta!
Junho 28, 2009
Chovia, mas não chovia.
- …uma pintura do Magritte, você viu?
- Sim.
- Frio demais. Gelado.
- Me parece decadente, caído à filosofia analítica: fria, burra e amargurada.
- É?
- Sim, à maneira de um Wittgenstein, um Russel…
- Vá à merda.
- Tenha calma, preste atenção: Magritte é um gênio. Assim como Russel e Wittgenstein.
- Só consigo entender esse “paralelo” se você estiver falando da meticulosidade, da frieza, da distância.
- Todos os três trabalham a Lógica. Magritte pensa pela pintura, ao contrário dos outros dois. E trabalha em uma inversão da Lógica, o que não deixa de ser lógico. Não propõe um jogo de multiplicidades.
- Certo, agora eu entendi o que quis dizer.
- O que você acha disso?
- Bem, é algo bastante óbvio: Magritte inverte a lógica mantendo-se lógico e lúcido. E o faz com frieza e meticulosidade. Witt e Russel trabalham a lógica com semelhante frieza e meticulosidade, porém propondo algo como “uma lógica dentro da lógica”. Diferente de Dalí, Miró ou até mesmo Chirico, Magritte não propõe nenhuma explosão, nenhuma multiplicidade.
- Sim, é por isso que tenho um pé atrás com Magritte. Claro, é um gênio. Indiscutível. Mas eu vejo genialidade não só na construção, veja bem, mas também nos caminhos que são traçados através desta genialidade. E, neste sentido, Magritte traça um caminho fechado às desrazões. É uma espécie de Kant: extremamente genial, mas um gênio que não conseguiu, no final das contas, contornar tudo.
- Bem, eu tenho uma queda por isso, você sabe.
- Uma queda pela queda, entendo.
- Exato.
- Mas aí existe outro jogo que considero particularmente interessante… Magritte é pintor, filósofo que pinta. Não escreve. Russel e Witt escreviam, Kant também. Isto é, por mais que Magritte trabalhe com uma filosofia sedentária, ele não a joga em um plano de exatidão, que é o propósito do conceito escrito. Assim a obra dele é aberta, quero dizer, pode-se ver, em sua obra, a desrazão pulsante. E sem que ele parta desta proposta.
- Excelente, perfeito.
- Você também ama Kant?
- Amo sua mamãe.
Junho 26, 2009
Rascunho.
/// o maço de cigarros ao canto da mesa o drama quantas vozes em minha cabeça estou sentado em um banco de praça e estou sentado em um banco de praça e penso em como sou idiota penso em como fiz sempre o pior a mim aos outros penso em como sou idiota penso em como sou idiota e sigo a pensar em como sou idiota sim um idiota estranho um idiota educado penso em como sou idiota e estou sentado em um banco de praça o maço de cigarros ao canto da mesa o poema quantas vozes quantas vozes quantas vozes em minha cabeça faz frio estou sentado em um banco de praça penso em como sou idiota sempre a remoer as velhas vulgaridades os mesmos desencontros sou culpado sou um idiota penso em minha culpa penso em como sou idiota meus ombros estão doendo meu estômago em cambalhotas e o maço de cigarros ao canto da mesa a promessa quantas vozes em minha cabeça quantas vozes meus sapatos são novos meus olhos estão ardendo eu não choro cigarros o cheiro do café penso em como sou idiota não choro lembranças estranhas penso em escrever um poema penso em como sou idiota idiota o maço o maço o maço de cigarros a mesa o maço de cigarros à mesa ao canto da mesa ao canto distância e penso em fugir digo que vou comprar cigarros digo que meu estômago explodiu digo que sou um idiota sigo a dizer imóvel louco permaneço quieto sorrio penso em como sou idiota digo o que não quero ouço o que não quero as palavras as palavras ouço ouço ouço o que não quero dói sou um idiota penso em como sou ao canto da mesa o maço de cigarros mil vozes em minha cabeça vou embora vou embora penso em como sou idiota eu não choro eu não choro eu não sinto eu não quero eu sorrio eu explico eu deformo eu não sei eu sou um idiota vou embora cigarros quantas vozes nenhuma naufrágio estou sentado em um banco de praça penso em como sou idiota vou embora preciso de uma aspirina vou embora penso em como sou idiota não me movo ///
Junho 25, 2009
Do amor idiota.
/// Desvio o olhar à janela enquanto você mastiga mais um bocejo e as luzes de uma madrugada impossível atravessam nossos copos. Então o velho sonho se agita em descompasso e penso em mil maneiras de sair correndo sem ser percebido, mas continuo a revolver discursos, cálculos, fiascos, poemas escondidos sobre o patético, sobre os falsos dramas, sobre minhas velhas sombras, sobre como coça o meio da testa, sobre a forma com que une as sobrancelhas em um desenho infantil, um desenho infernal. E como se encolhe em sorrisos que rasgam o espírito. Jogos de promessas e a disposição dos corpos: um que flutua, outro que se arrasta; um que ri e o outro a desviar o olhar à janela enquanto você aperta mais um bocejinho, espremendo o queixo em uma trêmula tensão que acaba por se tornar o motivo de mais um verso manco do espetáculo mais triste do mundo. Mas rimos. Rimos e lá fora o céu em silêncio. E aqui dentro um crescendo de profusões catastróficas e o desencontro em desinteressantes harmônicos. Você com sua beleza a bocejar e eu a desviar olhares, a metralhar bobagens sobre o cenário. Você mais menina ao passar dos instantes, eu em profunda mutação nervosa, em uma espécie complexa de transfiguração que explode em uma imagem de monstro cada vez mais monstro, afundando-se no sofá, cada vez mais monstro, cada vez mais monstro. E todos os monstros teriam medo de mim, aquele que deflagrou o abismo, o mais feio e repulsivo dos monstros, o monstrinho de brinquedo esquecido ao canto do seu quarto. Não sou seu livro, não sou seu livro, mas te escrevo um poema e adeus. E enquanto percorro o caminho em regresso, penso em quebrar os vidros das janelas e enforcar o motorista. E enquanto percorro o caminho em regresso, fumo. E hoje o céu está claro, e hoje o céu está claro. Então fumo e brinco com uma maçã. Eu escrevo um texto, não é um texto, sobre a maçã, não é a maçã. Sigo adiante. Um rapaz se senta ao meu lado e mira o céu, uma moça cruza o espaço e mira o chão. Sei que foram feitos um para o outro. Mais um cigarro, minhas mãos não param de tremer. ///
Junho 19, 2009
Blues
Seu braço esquerdo encostado no Trago encardido concentrado no Você me encontra e eu estou Bem Bem como se eu estevesse Como era mesmo? Eu negro você Você me parece Tango que queda na multidão Gritam refrigerados Rodando Rodando Poeira deslizante no lugar do Canto encardido correndo pela infinita Cheiro complemento Lago Nadando Oh, sim.
Junho 17, 2009
Epifania encardida
Glorioso estilingue. Gloriosa oração. Gloriosa chuva no Vale da Montanha. Gloriosos rochedos no centro da cidade. Chuva fina, alançante, calada. A única fala acontece quando nos tocamos. A pele grita. Claramente, ela olha para o lado. Claro é também o dia.
Esplendor ressecado perfumando ambiente cúmulo. Rosa que derrete na sombra. Na sombra, o proveta percebe que. Era o vento, dizia eu. Eu gostaria de dizer que. Ele requebra sobre as núvens, assiste o Infinito, chora no sossego, ri ao nascer do
Dia em que estávamos
Você se lembra, não é mesmo? Você se lembra. Chuva fina, alançante, calada. Claramente, ela olha para o lado. Claro é também o dia. Prateada, tomba a cabeça não-nascida. Não seria este o? Não seria este. Não seria. Não. Seria?
Fou sans roi.
Hoje o silêncio explodiu, o velho sonho invadiu o quarto. De uma das pálpebras escapa ainda a imagem de uma puta que engole minhas cortinas, que ri, uma puta que ri, uma puta que engole minhas cortinas e que ri e segue rindo a engolir minhas cortinas rindo rindo rindo a puta engole minhas cortinas e lambe a luz atravessada à janela.
Hoje o poema morreu. Um gordo atravessa o céu em queda, o céu atravessa em queda um gordo. Silêncio,
hoje o silêncio explodiu.
Ei, você, menininha estranha, você, sim,
você chora antes de dormir? Você quer um poema de brinquedo? Qual foi a mentira mais bonita que já contou? Onde está seu papai? Quer um doce? Um segredo? Está com medo? Quer dançar?
Ei, você, menininha estranha, como é ser de papel?
