vemos o protagonista
ele atravessa o espaço
nada faz sentido
nada tem importância
é como se monstros
embaixo da cama
vemos o protagonista
ele atravessa o espaço
nada faz sentido
nada tem importância
é como se monstros
embaixo da cama
DA MINHA CAMA
Sentado aqui
Vejo o feriado
(é natal)
Chegar pela
Janela
Não se apressa
Nem pacienta
Vem
E só.
***
Eu não perdi minha garganta
Mas isso não significa
Que eu deva gritar o tempo todo
A rouquidão dos pensamentos
É quem devo curar
Aí
Silêncio
Assim eu canto
E peço, bem mansinho
A meu coração que me ensine
O segredo da ligação
Entre ele e minha mente.
***
ORAÇÃO
Quero ouvir o cantar
Dos quatro cantos
Nos quatro cantos
Quero ouvir e dançar
E seus encantos
Assim celebrar
Quero abrir o Olho
E a sabedoria
Pra dançar sem covardia
Pra dançar por toda a noite
E aflorar os dons da magia
Quero abrir o Ouvido
Pra ouvir a voz do Vento
E seu louvor infinito
Pra ouvir melhor os ensinamentos
Que vem além do grito
E do silêncio
E do gemido
Quero a pureza
E sinceridade que seus filhos têm
Quero essa certeza
Constante e pura
Forte, santo, limpo
Como a noite
Quando o dia a fura.
se soubéssemos daquela manhã
das nuvens peixes numa janela
dos vasos sangüíneos de um homem
dos mares espessos de um homem
talvez a gente pudesse
subir até o edifício
subir até o edifício
subir até o edifício
Na parede de homens nus,
extintores.
Brancos, difusos,
homens na sala branca.
A faca
Sobre a noite
Fura e faz vasar
Grosso, espesso
O dia
Longo, indigesto
Em que
A faca
Cristal-óleo sobre
A tela
Do dia
Faz varar a noite
Cortina que irradia
A faca
Noite e dia
Erradica
O fio
Onde se anda
O fio
É que fica.
KLÁUSULA I
Relatório do último Inspetor Interno desta Corporação:
Uma semana:
“Possesso pelas páginas em branco de um passado não vivido, escrevo com fúria, de preto, diretamente para a tela. Você lê.”
Três meses:
“A Couve Flor quase estourou.”
Quinze anos:
“Posso olhar da janela das uretras de um anão morto e, nelas, navego nas cataratas de seus Olhos Negros.”
Relatório atualizado, revisto & ampliado:
Em volta com os cães na varanda coberta de vidro – uma vista para as estrelas -, realizo a equação e, repetidas vezes refazendo os calculos, a conclusão se reafirma: os resultados são que a sua vida prática afeta o funcionamento da Organização e, assim, conforme verificamos anteriormente (inserir nota), concluímos que, uma vez mais, a Roda Girou e quem rodou foi você.
Partindo da premissa que toda coação resulta em um coágulo de sangue profundo na orbita ocular resulta em um atravancamento das catracas do subsetor 099-c2b, acoplamos a Este Relatório um pequeno aparelho de gestação a ser colocado por um de nossos Agentes Invisíveis no espécime que tiver contato com estes gráficos.
Filhotes horríveis poderão ser vistos aos montes ao término Desta Hora.
Aguardamos a Próxima Convocação.
KLÁUSULA II
A Grande Sombra não é nada mais que uma associação de pessoas em prol do fim do desmatamento gerado nas últimas décadas e, por simbiose (inserir nota), se responsabiliza pelo
Plano Nardoni de Desenvolvimento,
que consiste em formular uma nova, ou melhor, operar um processo de purificação na raça humana.
Seu projeto consiste em jogar todo e qualquer habitante humano do planeta do topo de edifícios. Quem voar vive. Estes se reproduzem e, voilà, themos ahi uma Nóva Raça.
A Grande Sombra não é passível de explicação a menos por meios sensivelmente perceptíveis que não a assim chamada consciência ordinária. Em outros termos, é necessário desenvolver um sentido que, embora existente, permaneça como morto ou mito do tesouro perdido, em nossa civilização. Tal sentido não é outro senão o assim chamado Sentido d’A Corporação e habita entre o pescoço e a clavícula esquerda. Seu desenvolvimento implica no hiperaperfeiçoamento dos outros e, mais, na captação de Antigas Vozes para o ordenamento pleno e em sincronia com os Elementos destes.
“O exercício pleno dos sentidos se dá no processo de carburação de Ohxi.” – Mahatma Gandhi.
O Novo Projeto há de consistir em uma Marcha pela Liberação & Uso Indiscriminado et Obrigatório d’O Mesmo.
Encerro por aqui e me deixo a obrigação de enviar em breve (inserir nota) mais notas à Organização.
O Inspetor.
“Cadáver de borboleta / ainda aérea, ainda / borboletas percorrem / seu corpo. Nenhum mistério.”
sufocantes primeiras flores loucos nas bancas de jornal nos hospitais e morrem ratos mortos que não sabem nadar sufocantes primeiras flores
(Delírios com a mão esquerda na casa do Vinícius)
Você colocou a tenda pros ratos
Ou os ratos colocaram a tenda
Pra se protegerem de você
Ou você colocou a tenda
Por dentro dos ratos
Eles botaram tenda em você
Ou você colocou a tenda
Por cima de você
Pra se proteger dos ratos
Ou a tenda colocou os ratos
Por cima de você
E você colocou a tenda
Por cima dos ratos
Os ratos por baixo da tenda
Com você.
o poema dos olhos de vidro
por sobre a mesa
derrama-se o poema
por dentro do escuro
estranhamente gravatas
delicadamente insetos
pousam por sobre o poema
engavetado
secretamente aeronaves
invariavelmente sonhos
atravessam o homem
refletido
a quantidade de solidão no mundo
a qualidade de certas flores
o avesso do poema
inexistente
o poema dos olhos de vidro
por sobre a mesa
derrama-se o poema
dos olhos de vidro
Aterrador
A terra, dor
À Terra, dor
Aterra, dor
A ter a dor
Aterrador
Sou cruel na medida em que
Sou cruel na medida em que sou
Sou cruel na medida em que sou cruel
Sou cruel na medida em que sou
Sou cruel na medida em que
Sou cruel na medida.
eu acho que a gente devia
pegar todo mundo de surpresa
arrumar a mesa
e queimar tudo
aí você falava que era tudo mentira
eu gritava o seu nome e você
gritava o meu
e o escuro
por detrás
Depois de tapar os olhos me deixo reconfortar as vistas no escuro e, tirando do bolso um pedaço de pano, faço-me cego por três semanas. E três semanas foi o suficiente para que minhas vistas pudessem ver que jamais deveriam conhecer a luz. Agora, arrastado pela força da cidade, cato piolhos de porcos e os atiro em bacias. Bacias d’água que mulheres usam para lavar a buceta quando por aqui passam e instalam suas doenças pelos ares. E foi no escuro que tombaram os olhos do assassino sobre o corpo mole recém-nascido afogado na bacia podre. Ajeita as calças, calça as botas, coça as bolas e some pela madrugada. Quem pode reconhecer seu rosto no espelho?
tem um porteiro no escuro, tem um muro,
uma velha, um rato
tem um poste no final da rua
tem a lua
violeta
olha o ovo em cima da pia
espia
tem um caco de vidro no chão
tem um pedaço de pão
embaixo da mesa
eu não tenho muita certeza
do que eu tô fazendo aqui
você quer um pouco d’água?
entra aqui
escuta
eu quero te propor um negócio:
vamos matar alguém?
“shhh, olha a cobra!”
cospe nela mata ela some daqui eu tô indo embora
corte seco ouvimos os sonhos da vizinha rádio-relógio interferência:
“ela vai morrer”
são oito da manhã a rua tá deserta ela ainda não morreu
atravessamos uma avenida repleta de dinos-
-sauros:
tá! TÁ! TÁ!!!
recorte as beiradas, molhe o dedo aqui
tem sangue por todos os lados
não se mova
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